Função dos jogos didáticos na escola

Longe de ser apenas uma reprodução histórica dos saberes, as aulas precisam cativar os alunos para aprender, principalmente, aquém da virtualidade

 

Foto: Clutterboxblog.com

No contexto escolar, os jogos precisam ser compreendidos como um suporte para novos discursos no processo de ensino aprendizagem. O ideal é que, durante as aulas, eles assumam um propósito mais colaborativo, do que competitivo, pois as crianças naturalmente são egocêntricas e, ao falarmos em jogos, já vem a elas a ideia de ganhar e perder. “Ainda é preciso articular essa atividade de modo a permitir a participação simultânea e total dos alunos, sem que nenhum deles seja excluído das considerações colocadas em pauta no ou pelo grupo. Isso não é fácil, mas é
possível!”, explica a nossa entrevistada.

Guia Prático para o Professor do Ensino Fundamental I – Qual o papel pedagógico dos jogos no dia a dia escolar?
Rita de Cássia Santos Almeida – Eles são importantes como recurso didático para o professor usar como alternativa de suas técnicas. Jogando, as crianças aprendem a usar a fala, pôr em prática todo vocabulário, exercitar a contextualização, as referências e todo repertório que possuem. Entre algumas funções, os jogos servem para auxiliar nos esclarecimentos em relação a determinadas dúvidas, reforçar conteúdos já estudados, aprimorar os conhecimentos a partir do que o aluno já domina, motivar, atrair à participação, possibilitar o envolvimento de todos, oportunizar momentos de troca de saberes, nos quais um aprende com o outro, promover a autoestima, principalmente dos que ficam sempre à margem, entre outras opções.

EF – Com os jogos é possível trabalhar a interdisciplinaridade?
Almeida – Considerando a interdisciplinaridade como uma rede de saberes, a interrelação de temas sempre estará presente nos jogos, pois o pensamento percorre desde a busca da resposta ao problema exposto até a apresentação da solução. Nessa circunstância, também é acionada as habilidades de associar, comparar, incluir, excluir, reconstruir etc. Se propusermos um jogo com o tema alimentação, por exemplo, poderemos intervir com amplas reflexões a respeito de educação alimentar; condições culturais, históricas, sociais e sustentabilidade; questões geográficas, como tipos de solo e uso de agrotóxico; mão de obra; etc. Desde que o professor faça uma boa preparação, são inúmeras as possibilidades de envolver os alunos em uma situação-problema para estudos que visam à ligação dos conhecimentos, envolvendo sempre duas ou mais disciplinas.

EF – Por que atividades aparentemente descontraídas favorecem tanto a participação ativa do aluno em seu grupo quanto seus questionamentos e reflexões?
Almeida – Quando as crianças estão realmente envolvidas em uma atividade, elas demonstram segurança por poder contribuir de alguma forma com a construção dos saberes. Levando em conta que o jogo é uma brincadeira, cuja regra principal é pensar, refletir, trocar ideias e participar, ninguém quer ficar de fora, pois o envolvimento cria um clima benéfico, carregado de energia positiva que favorece o ser-estar de cada participante, por meio de atitudes, discurso, postura, demonstração de valores etc. Toda criança quer e precisa contribuir, mesmo que seja com um palpite, para reforçar ou discordar de algo que alguém declarou. Nesse momento, toda palavra enunciada evoca saberes pessoais que cada uma carrega. Diante de uma situação-problema sempre haverá um tom provocativo que levará o grupo a unir pensamentos e falas para construir um caminho e apresentar uma solução em cooperação.

EF – Com os jogos dá para transformar um aluno apático em protagonista de seus próprios conhecimentos?
Almeida – Muitas vezes, o aluno que é tímido ou apático está sujeito a gracejos e piadas por parte de alguns. Isso o torna cada vez mais retraído e distante da vontade de participar das atividades. Ele sente que se opinar será ridicularizado. No entanto, quando sensibilizamos a turma a respeito de valores, aos poucos, vamos conquistando a confiança dos que quase não participam, despertamos a autoestima deles e, em interação com o grupo, ainda os tornamos fiéis representantes de seus próprios pensamentos e ações. Embora não seja fácil mudar a postura de uma criança apática, pois há uma série de questões que a tornou assim, acredito que o jogo pode fortalecer as relações pessoais. Porém, somente o estímulo do professor permitirá que cada um exerça o protagonismo a que tem direito, pois todos precisam atuar, expressar-se com segurança, seriedade e sabedoria para aprender a se posicionar diante de situações cotidianas.

EF – Há uma periodicidade que precisa ser respeitada em relação à atividade?
Almeida – Em relação à periodicidade, se considerarmos o valor do jogo didático como uma prática lúdica, devemos deixar claro aos alunos que a todo o momento eles estão aprendendo, que a brincadeira é organizada e que é preciso manter a ordem nessas horas também. Além disso, precisamos nos atentar para os diferentes momentos: ora o professor tomará a frente, ora serão os alunos que terão a vez de se manifestar. Combinado tudo isso, aos poucos, as crianças se disciplinarão para a dinâmica que o professor tem para suas aulas e o jogo poderá ser usado com a frequência que cada um achar melhor.

EF – Como explicar as regras para os alunos, sem limitar a criatividade deles durante o jogar?
Almeida – Nos últimos tempos, regras não têm sido bem-vindas para a sociedade em geral. Entretanto, uma de nossas preocupações em sala de aula é administrar a disciplina, a ordem e a organização. Mas nem todas as crianças nos acompanham nisso, afinal há problemas disciplinares, devido a vários fatores. Assim, acredito que uma grande contribuição do jogo didático é treinar a aprendizagem de seguir as regras. Para alcançarmos isso, precisamos que os alunos entendam por que as regras existem e por que devemos segui-las. Pequenas dinâmicas poderão servir para reflexão coletiva sobre ter ou não ter regras. É importante que os alunos tragam à tona as possíveis justificativas para a existência das normas no cotidiano de todos nós. Embora sejamos livres, temos limitações, restrições e valores, que precisam ser exercitados. Que tal iniciar a apresentação do conceito de normas, leis e regras a partir do que as crianças sabem sobre o assunto? Este pode ser o início de um trabalho com a postura e a opinião delas em diferentes momentos, pois é relevante que consigamos fazê-las pensar sobre o valor do sim e do não, para que façam parte da organização dos limites. Consequentemente, se as convidarmos para auxiliar na elaboração das regras para qualquer momento, seja durante as aulas ou em alguma atividade em especial, já
se sentirão coautoras de todos os combinados, agentes das ações, envolvidas e mais responsáveis a cumpri-las. Aos que opinaram contra em algum item, precisamos oportunizar situações para reverem seus conceitos, provavelmente a partir de atitudes que provoquem revoltas ou contrariedades, para que cheguem à ponderação e ao respeito: se não quero algo para mim, não devo desejá-lo para outra pessoa. Como educadores precisamos reaver valores adormecidos nas relações sociais de base.

Foto: Arquivo Pessoal

 

Rita de Cássia Santos Almeida
Professora de Português, Pedagoga, Psicopedagoga, Mestre em Educação Sociocomunitária e escritora, ela se dedica ao magistério há mais de três décadas. Nos últimos anos, ela ainda vem ocupando o cargo de coordenadora do Curso de Pedagogia nas Faculdades Integradas Einstein de Limeira, cidade do estado de São Paulo.

Revista Guia do Ensino Fundamental Ed. 144