Educação e cultura em foco

Restringir os conhecimentos dos alunos em relação ao seu entorno é negá-los o direito de conhecer suas próprias histórias

Texto Simone Viana* | Foto Carlos Ricon

Além do aprendizado relativo à grade curricular, as crianças precisam ser apresentadas a história do local intrínseco a elas, com a finalidade de expandir os próprios conhecimentos em relação a si mesmas, seu bairro, região e, finalmente, país. Embora esse tipo de trabalho já seja enfatizado tanto nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) quanto na Nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB), ele ainda encontra muitos obstáculos, que cabe ao professor serem transpostos, na tentativa de fazer com que seus alunos compreendam o que é diversidade cultural e aprendam a respeitar a Cultura, inclusive do outro, a memória e as tradições do lugar em que vivem. De acordo com Simone Viana, nossa entrevistada, essa é a única forma possível de gerar cidadãos capazes de transformar seu entorno, sem abandoná-lo a procura de outros locais que consideram mais adequados para seu suposto tipo de vida.

Guia Prático para o Professor do Ensino Fundamental I – As atuais políticas educacionais prestigiam a relação entre Educação e Cultura?
Simone Viana – Como os problemas da sociedade, dos bairros e da comunidade influenciam o modo pelo qual as políticas públicas são recebidas e postas em ação no cotidiano escolar, ainda falta muito para que isto ocorra de maneira plena em nosso país. Portanto, não adianta somente termos políticas educacionais que prestigiam a Educação e a Cultura, pois é preciso oferecer à grande maioria das escolas públicas, principalmente, as que enfrentam dificuldades para colocar em prática as diretrizes e ações políticas estabelecidas no plano de governo, condições estruturais favoráveis para a execução dessas políticas, a fim de atender de forma eficaz às necessidades da Educação.

EF – Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e a Nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB) é fundamental essa relação?
Viana – Eu penso que os PCNs, como abordagem curricular da Educação básica que tem como objetivo ser um referencial comum para a Educação de todos os Estados do Brasil, não são suficientes, pois muitos professores têm tido dificuldades em aplicar as sugestões apresentadas por eles. O trabalho interdisciplinar, por exemplo, ainda é um desafio no cotidiano escolar. Logo, são necessárias políticas educacionais que atendam a regionalidade de cada lugar no Brasil. Apesar disso, tanto os PCNs quanto a nova LDB enfatizam a ideia de diversidade cultural, múltiplos olhares sobre a Cultura e a História do patrimônio material e imaterial do Brasil, mas a formação e a qualificação dos professores também deveriam ser movidas por uma ação, aliás, primordial, na execução de políticas educacionais que integram Educação e Cultura. Portanto, ainda é necessário qualificar os docentes, oportunizar metodologias inovadoras de ensino que permita o uso de novas práticas educacionais, elaboração e execução de projetos pedagógicos que incentivem tal integração.

Foto: puraaventura.com/latin-america

EF – Nesse contexto, como fica o currículo escolar? Ele não está desatualizado em termos de Cultura e Educação?
Viana – O currículo escolar também precisa de uma ação renovadora, pois ele deveria dar maior ênfase ao cotidiano escolar, permitindo, por exemplo, estudos de histórias regionais e locais, que proporcionariam a formação de uma identidade cultural e, consequentemente, nacional, ao dar ênfase as tradições, valores, memórias, vivências e uma nova percepção de tempo e do espaço.

EF – Se já sabemos que o contato com a cultura propicia um trabalho voltado para a valorização das raízes culturais do aluno, que tipo de reflexão pode ser desenvolvido para alcançar esse intento?
Viana – O mais importante é refletir sobre como a Cultura se traduz em experiências escolares e, a partir daí, desvendar a imagem que os alunos têm de si mesmos, de seu lugar, de seu país, do mundo em que vivem. É preciso, aos professores, buscar esse olhar, essa identidade, esse sujeito capaz de transformar a sua própria realidade a partir do conhecimento obtido por ela mesma. O ideal seria oportunizar ao aluno a busca de suas raízes, fazê-lo relembrar coisas do passado, seja na família ou comunidade, na cidade ou na região, para tornar a História viva e inseri-lo como sujeito ativo dela, inclusive com capacidade de transformá-la de maneira crítica e consciente.

EF – Da teoria para a prática, de que forma os professores podem oportunizar, por meio de atividades pedagógicas, a busca por essas raízes culturais?
Viana – Por meio de projetos pedagógicos interdisciplinares que trabalham Educação e Cultura. A Cultura é plural e implica em sujeitos, valores, manifestações artístico-culturais e materiais, imaginário social, identidade, conhecimento, relações de poder, religião etc. Dessa forma, ela possibilita várias possibilidades de projetos, que giram em torno de grandes temas que estão interligados e valorizam a Cultura no cenário educacional, como Identidade e Pluralidade; Cultura de Massa e Consumo; Patrimônio e Herança Cultural; Cultura e Cidadania etc. Assim sendo, a Cultura configura um mundo de símbolos, que atribui significados e delimita a forma como se lê, se sente, se vive, enquanto também define a maneira de ser e de agir do indivíduo. Mas para que essa abordagem pedagógica se realize com sucesso, é necessário motivar o aluno, mostrando a ele a relevância do trabalho, tanto para o entendimento do presente quanto para aprimorar sua própria vida social e cultural. Além disso, ainda é preciso lembrar que os projetos ou atividades pedagógicas podem ser recriados com autonomia pelo professor que, dessa maneira, pode problematizar a relação Cultura e Educação a partir de novas Histórias e vivências.

EF – O que o professor não deve fazer ao trabalhar a História cultural da região ou comunidade em que a escola está inserida?
Viana – Principalmente, menosprezar a história do outro, não lhe dando a importância merecida, pois para uma boa prática, é necessário conhecer e fortalecer a identidade social, possibilitando ao aluno compreender e reconhecer o espaço onde vive, pertencer e se apropriar dele no decorrer da sua história, a fim de promover a troca de significados e vivências.

EF – Não há como falar de Cultura sem falar de Arte. De que forma espaços culturais como museus, teatros, centros de exposição, entre outros, poderiam ser usados do ponto de vista educacional? Que atividades interessantes um professor poderia promover neles?
Viana – Inúmeras, incluindo visitas a esses mesmos espaços, desde que seja permitido ao aluno escolher o roteiro e os passeios na região em que vive, de preferência na companhia de guias, que lhe propiciarão conhecer as curiosidades e as histórias dos lugares que fazem parte do seu dia a dia.

EF – Que habilidades e competências o contato com as diferentes formas de Arte pode desenvolver nas crianças?
Viana – Ao realizar diversas produções artísticas, individuais ou coletivas, utilizando as linguagens da arte, como música, artes visuais e audiovisuais, dança e teatro, elas se envolvem na descoberta de novos saberes e vivências por meio de histórias orais. A partir daí, também começam a analisar, refletir, respeitar e preservar as diversas manifestações utilizadas por vários grupos
sociais e étnicos. Consequentemente, as crianças também passam a interagir com o patrimônio material e imaterial da história local, nacional e global e, ao serem estimuladas
nesse sentido, ainda tendem a compreender sua dimensão sócio-histórica dentro do atual mundo globalizado.

*Simone Viana
Além de professora, é pesquisadora e como tal atua há 10 anos no curso de Pedagogia da Universidade Estácio de Sá, instituição de ensino presente em todo o Brasil.