É preciso envolver a criançada na construção das informações

Em sala de aula, todo professor deveria ter o cuidado para não ser apenas um instrutor ou transmissor de conteúdos

 

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A cada dia que se passa, faz-se mais relevante que o docente capacite-se para ser um facilitador do conhecimento, na tentativa de propiciar ao aluno a corresponsabilização pelo seu próprio
aprendizado. Porém, muitos ainda sequer conhecem a comunicação assertiva e, em consequência, tentam impor as informações necessárias ao invés de envolver a criançada na construção delas.  Mas, como nos explica a entrevistada dessa edição, considerando que a aprendizagem somente ocorre a partir de trocas, os professores deveriam compreender a importância da arte da assertividade, com a qual passariam a utilizar as palavras como promotoras da interação entre todos os participantes do processo ensino-aprendizagem.

Guia Prático para o Professor do Ensino Fundamental I – O que é e qual a importância da CA em sala de aula?
Beatriz Acampora – A CA é o tipo de interação humana que valoriza a troca, o intercâmbio e o feedback entre as pessoas. Consequentemente, ela deve ser afirmativa, positiva, incitar a reflexão e a ação. Mas, ao mesmo tempo em que o aluno deve compreender a linguagem falada, escrita e a não verbal, ainda cabe ao professor estar atento aos modos como se conduz sua comunicação em sala de aula para que não haja ambiguidades, pois verbalizar algo e se contradizer com atitudes, linguagem corporal e expressões faciais, são contradições notadas até pelas crianças das séries iniciais.

EF – Como a CA deve ser empregada para a mensagem desejada chegar de fato ao aluno?
Acampora – Atualmente vivemos em um mundo no qual as novas tecnologias são altamente valorizadas. Portanto, é preciso aproveitar tudo o que é possível para agregar valor à educação. Dessa forma, celulares podem ser utilizados para fazer pesquisas, para associar teoria e prática, para fazer vídeos sobre um determinado assunto. O educador deve compreender a realidade de cada aluno e trazê-la para a sala de aula, pois é por meio de trocas de experiências e da aplicabilidade prática dos conteúdos que as crianças se sentem fazendo parte de algo e se motivam a participar ativamente. Se um aluno, por exemplo, ajuda o pai a vender verduras na feira, ele já tem conhecimentos matemáticos importantes e é essencial incluí-los na aprendizagem da disciplina, pois, assim, estudar se transforma em algo divertido que faz parte da realidade da criança e não apenas em uma obrigação.

EF – Como o professor pode usar a CA visando tanto o aprimoramento das relações humanas na escola quanto à transformação do aluno em um agente de mudança?
Acampora – A educação mudou muito em função da globalização e das novas necessidades sociais. A escola de hoje prioriza os contextos socioculturais e, graças a isso, a educação tornou-se regionalizada e, ao mesmo tempo, mais ampla, fato que permite aos alunos participarem ativamente da construção do conhecimento a partir do que experienciam. Além disso, a comunicação é uma das habilidades sociais. Uma pessoa que sabe se comunicar bem é muito mais hábil socialmente. Em consequência, o educador deve utilizar a comunicação como a ferramenta mais valorosa do processo educacional, pois, normalmente, o modo como eles se dirigem aos estudantes gera um impacto direto, segmenta o tipo de relação a ser construída com os alunos e ainda direciona o  modo como os discentes vão se implicar na construção do seu próprio conhecimento em determinada disciplina.

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EF – Como provocar a construção do conhecimento, a partir da reflexão e ainda obter um feedback do desenvolvimento infantil?
Acampora – As crianças são muito espontâneas e aprendem rápido, por isso o professor deve facilitar as trocas de experiências, solicitando aos alunos que relacionem um determinado conteúdo com algo que já viram na televisão ou uma história que ouviram ou vivenciaram. Ainda é possível propor experimentos, atuações em pequenos grupos, que permitam o diálogo, e a ampliação de um determinado tema. É importante também suscitar a curiosidade, propondo pesquisas para casa e dentro da própria escola, apresentações em sala de aula dos resultados encontrados e o acréscimo pessoal do aluno ao conteúdo estudado. Se um professor está ensinando Matemática, por exemplo, ele pode propor uma gincana em que os números sejam a temática principal. Já foi mais do que comprovado que atenção, memória e afeto estão relacionados. Dessa forma, atividades divertidas que promovam emoções positivas, tendem a ser grandes contribuintes da aprendizagem.

EF – A senhora poderia nos dar algumas sugestões práticas de como aprimorar a comunicação assertiva no processo ensino-aprendizagem?
Acampora – Como a CA pode ser treinada, o educador deve valorizar o desenvolvimento desta competência para desempenhar melhor o seu papel nas trocas com os alunos. Nesse sentido é importante ter conhecimento do que se diz, ser claro e direto, tomar cuidado com a linguagem utilizada, estar atento à linguagem corporal, ser empático, não se sentir intimidado, compreender que cada aluno é diferente do outro e ainda valorizá-los essa condição.

EF – A partir dessas atitudes, o professor pode se tornar um modelo positivo para os alunos?
Acampora – O professor sempre é um modelo para o aluno, seja positivo ou negativo. Quando ele entra na sala de aula com uma postura de detentor do conhecimento, de desdém para as possíveis
contribuições que as crianças possam fazer, a tendência é que os alunos queiram se livrar logo dele, situação que gera afastamento e cumprimento das tarefas por obrigação, sem envolvimento. Contudo, quando ele se posiciona de forma aberta e flexível, disposto a sempre ouvir e promover à troca de saberes, incluindo os alunos de forma clara e assertiva em cada tarefa, a turminha toda tende a se envolver e a olhá-lo como um exemplo de ser humano a ser seguido. Portanto, cada professor deve se questionar sobre que tipo de mensagem quer passar aos alunos e se esforçar para que haja coerência entre o que é e o que propõe em sala de aula. As crianças descobrem rapidamente aquilo que é forçado, cuja intenção é passar uma imagem que não é verdadeira. Então, a proposta é que cada um possa olhar para suas próprias fragilidades enquanto docente e investir no aprimoramento da sua inteligência emocional, no modo como se comunica e como expressa o que deseja, para que os resultados sejam positivos. Dessa forma, enquanto um ser humano disposto a compreender e a efetivar trocas com outro ser humano, além de quebrar as resistências por meio da comunicação verbal ou digital eficientes, ele também será capaz de propiciar interesse e impulsionar aos alunos em relação ao processo ensino-aprendizagem.

 

Sobre Beatriz Acampora
Além de Mestre em Cognição e Linguagem, ela é psicóloga, jornalista, professora da Universidade Estácio de Sá e especialista em comunicação e relacionamentos humanos.

 

 

 

Revista Guia do Ensino Fundamental Ed. 140

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