A importância da prática para as crianças

Para aprender de fato, a criançada precisa tanto assimilar conteúdos quanto colocar a mão na massa!

Foto: understood.org | Adaptação web Caroline Svitras

 

Toda vez que destacamos um trabalho prático, principalmente aqueles que trazem passos, insistimos para que, enquanto os alunos se dedicam a elaboração dele, em paralelo a criação, o professor faça tanto a transmissão do conteúdo correspondente quanto à elucidação das dúvidas referentes ao tema, devido a um simples motivo: na maioria das vezes, em meio à descontração, as crianças assimilam os conceitos de forma natural, sem que nenhuma imposição de obrigatoriedade seja feita a eles. Apesar de essa condição ser facilmente observada, até então, nunca tínhamos explicado a importância pedagógica de conjugar prática e teoria. Contudo, com a ajuda de Luciana Barros de Almeida, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp), resolvemos elucidar esse ponto, para que você saiba como transformar suas aulas em algo bem mais eficiente e prazeroso para a criançada!
Guia Prático para o Professor do Ensino Fundamental I – Diante de uma atividade a ser feita, de que forma os saberes prático e teórico se relacionam?

Luciana Barros de Almeida – Teoria e prática são saberes indissociáveis. Fazendo uma metáfora para levar a compreensão desse aspecto, no qual se situa a indissociabilidade, podemos citar o par composto por mãe e filho. Um, para existir, é interdependente do outro, isto é, a mãe só se torna mãe porque teve um filho e um filho só é filho porque teve uma mãe. Portanto, ao pensar uma atividade é preciso se amparar em um referencial teórico que, por sua vez, designa a escolha da abordagem a ser utilizada. A partir dessa escolha se delineia o perfil prático da atividade a ser executada. Considerando ainda a indissociabilidade, não podemos determinar que um seja mais importante que o outro, porém podemos dizer que o ponto de partida sempre vai da teoria à prática.

 

EF – De que forma o colocando a mão na massa, ajuda a aprender algum conteúdo?

Almeida – Este pressuposto é prevalente e evolutivo para criança, mas à medida que cronologicamente ela cresce e se desenvolve, esse parâmetro vai se invertendo. Consequentemente, a criança pequena, primeiro, precisa explorar o objeto para depois internalizá-lo. Só assim, gradativamente, ela é capaz de apreendê-lo e, enquanto vai apropriando-se do objeto, seus esquemas de pensamento evoluem e amadurecem. A partir daí, quando ela vai sendo capaz de pensar o objeto, necessitando a cada dia menos da exploração, dá-se a abstração do conhecimento. Portanto, quanto menor ou menos idade a criança tiver, maior será a necessidade de exploração do objeto a conhecer. Logo, ao evoluir cronologicamente, a exploração palpável também deve ir se tornando menos evidente. Contudo o “colocar a mão na massa” é um canal de aprendizagem. Vale lembrar Confúcio que dizia “aquilo que escuto, posso esquecer, aquilo que vejo eu lembro, aquilo que eu faço aprendo”.

 

EF – Os métodos de ensino de hoje em dia carecem de um caráter mais prático para serem mais eficazes e conquistarem os alunos?

Almeida – O que pode favorecer a apropriação do conhecimento é o lúdico. Nossas crianças, a cada dia, têm sido menos crianças, portanto é dever da escola favorecer esse espaço primordial de ser criança em suas devidas etapas. Métodos servem para quem ensina. Por isso, essa deve ser uma preocupação do professor para consigo mesmo. Já para as crianças cabe a exploração e compreensão do objeto de conhecimento.

 

EF – Qual o papel das experiências prévias no momento da criança realizar bem alguma tarefa?

Almeida – Pensando na perspectiva sócio-histórica, o conhecimento se dá em três níveis: aquilo que eu já sei sobre o assunto, aquilo que posso saber e aquilo que ainda não sei. Portanto, o conhecimento prévio é o ponto de partida para aprender. É como pensar uma história em três tempos: passado, presente e futuro. Nesse contexto, o conhecimento prévio é inerente, pois é ele quem dá acesso ao momento seguinte.

 

EF – Quais fatores podem contribuir para um melhor aprendizado?

Almeida – A cognição que se dá pelo equilíbrio entre os fatores biológicos e ambientais. Portanto, temos que assegurar a proporcionalidade entre a faixa etária e o conteúdo a ser aprendido, o modo como esse conteúdo será explorado e a relação estabelecida entre o sujeito e o objeto a conhecer. Aqui ainda tenho que ressaltar que ao falar de sujeito temos o sujeito que ensina e o sujeito que aprende. E, ainda tratando do sujeito que ensina temos a figura do professor e a figura da família, ambos indispensáveis dentro do aspecto do desenvolvimento da criança e do préadolescente. Sabemos, hoje, que a cognição não é algo determinado geneticamente, a biologia é só um ponto de partida, tanto que os estudos científicos nos mostram a plasticidade cerebral, apontando que as conexões neurais não se restringem apenas a alguns ciclos da vida, mas podem se reestruturar pela vida afora dependendo dos movimentos mobilizados, claro que em suas devidas proporções de favorecimento de acordo com a faixa etária. Assim, podemos afirmar que aprendemos em qualquer tempo e aprender é para todos, desde que fomentado.

 

EF – Aquilo que nos é ensinado durante a infância é aprendido com mais facilidade?

Almeida – A infância é o período mais propício para conexões neurais saudáveis, haja vista que o sistema nervoso humano é extremamente flexível, porém na medida em que vamos crescendo o nível de flexibilidade vai se alterando, mas sem deixar de ser flexível. Contudo, na medida em que as experiências vão se inscrevendo na experiência do sujeito, refazê-las requer mais tempo e esforço para que se efetive a transformação. Por isso, há uma tendência na
afirmativa de que se aprende mais na infância. Porém, talvez o correto fosse afirmar que quanto menos idade melhor a capacidade de se aprender, obviamente o que lhe seja apropriado de acordo com a faixa etária, mas sem esquecer que, podemos aprender sempre!

 

Sobre o entrevistado

Foto: Arquivo pessoal

A psicopedagoga Luciana Barros de Almeida é Presidente Nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp), eleita para o triênio 2014-2016. Anteriormente, ela já havia exercido o cargo de vice-presidente na mesma associação.

 

Adaptado do texto “Teoria+Prática=Conhecimento”