A tecnologia na prática docente

Ao longo da história, o homem sempre precisou conviver com diferentes grupos – culturais, religiosos, políticos, sociais, entre outros – e, em pleno século 21, não poderia ser diferente

Foto: Itaci Batista | Adaptação web Caroline Svitras

Hoje, graças à evolução da tecnologia, a comunicação se dá de uma forma bem diversificada: a Internet já media uma série de relacionamentos, por meio do correio eletrônico (e-mail), celulares, chat (bate papo on-line), rede sociais, entre outras opções. No entanto, ainda se faz imprescindível identificar novas formas de conviver, aprender, criar, informar-se e comunicar-se por tais meios, pois, se por um lado os alunos usam e abusam da tecnologia no dia a dia, por outro, eles ainda não conseguem utilizar tudo que têm em mãos de forma eficiente. Então, como o professor pode auxiliá-los no uso crítico, criativo e inteligente das tecnologias? A melhor dica, conforme nos explica Mary Rangel, é estimular o aprendizado por meio de estudos e pesquisas no meio virtual, desde que em paralelo às práticas didáticas tradicionais.

 

Guia Prático para o Professor do Ensino Fundamental I – Por que a utilização da tecnologia no ambiente escolar ainda é tão polêmica?

Mary Rangel – A utilização da tecnologia no ambiente escolar é polêmica devido a vários fatores, como por se tratar de aplicações historicamente recentes na escola; por requerer domínio de linguagens e códigos específicos, diferentes dos usuais; por suscitar dúvidas relacionadas aos seus efeitos na formação dos alunos, a exemplo, entre outros, de cópias e downloads que possam limitar a autoria própria de textos; ou ainda, da influência de contra valores que estejam sendo veiculados nas redes sociais.

 

EF – Como a relação do professor com a tecnologia pode ser definida atualmente?

Mary – Ela pode ser definida, sobretudo, como uma relação de ajuda, pelas fontes de informações e de estudos que são disponibilizados, pela agilidade que propicia na produção e envio de mensagens e textos, pela ampliação de possibilidades de comunicação coletiva. Contudo, permanecem dificuldades no acesso e no uso de recursos tecnológicos; no acesso, porque nem todos os recursos estão disponíveis, ou são de fácil aquisição; e no uso, porque requer conhecimentos e práticas que desenvolvam as habilidades necessárias.

 

Ler implica assimilar tanto as palavras quanto às frases

 

EF – No Brasil, esse quadro tende a melhorar ou as dificuldades existentes só aumentarão?

Mary – Acredito que, no Brasil e no mundo, o uso de tecnologias, cada vez mais avançadas, é irreversível. Já as dificuldades se constituem não como obstáculos, mas como desafios a serem enfrentados e superados.

 

EF – Embora muitos professores se sintam despreparados, será que eles já perceberam o potencial dos novos recursos para o aprendizado infantil?

Mary – Não recomendo generalizar a observação de que muitos professores se sentem despreparados. Quanto a terem percebido o potencial de novos recursos para o aprendizado infantil, acredito que sim, e acrescento, nesse sentido, as evidências do quanto as crianças têm interesse e facilidade no uso de tecnologias, incluindo as que
oferecem os jogos eletrônicos.

 

A importância da prática para as crianças

 

EF – A distribuição que o governo federal vem fazendo de tablets se mostra como uma medida adequada, ou não, diante da falta de qualificação dos docentes?

Mary – Também não é recomendável que se generalize a falta de qualificação dos docentes; muitos já utilizam tecnologias e possuem as habilidades requeridas. Quanto aos que ainda não possuem essas habilidades, poderão lhes ser oferecidos cursos de formação e atualização de conhecimento. Desse modo, considerando que os tablets são equipamentos tecnológicos que propiciam fontes de estudos, informações, comunicação, além de experiência no uso desse recurso e do próprio ambiente virtual contemporâneo, considero a sua distribuição adequada.

 

EF – Entre aqueles que se mostram inseguros quanto ao manejo de computadores, tablets ou até celulares, tentativas de introduzir as tecnologias em sala de aula não permitiriam uma maior interação com os alunos?

Mary – A introdução do uso de tecnologias em sala de aula, considerando a maior facilidade e agilidade de comunicação, amplia possibilidades de interação. Contudo, além das tecnologias, as práticas didáticas dos professores e as dinâmicas das aulas podem também estimular os alunos a interagirem e lhes oferecer aprendizagens significativas.

 

Foto: Reprodução/carolynperryskindergarten.blogspot.com

EF – Por que muitos professores que dominam tais tecnologias no dia a dia ainda não são capazes de fazer uma relação educativa consistente do seu próprio trabalho com as ferramentas que podem ser utilizadas em sala de aula?

Mary – Novamente, observo que não é recomendável generalizar, como fato evidente, que muitos professores que dominam as tecnologias no dia a dia ainda não são capazes de fazer uma relação educativa consistente do seu próprio trabalho com as ferramentas que podem ser utilizadas em sala de aula. Acredito, sim, que há um interesse expressivo de professores e que, na medida da possibilidade de acesso e da disponibilização dos equipamentos, eles estejam utilizando em sala de aula não como determinantes de métodos de ensino, mas como recursos e meios auxiliares.

 

EF – Quais são as maiores dificuldades que o professor ainda enfrenta para testar as novas tecnologias e identificar quais se enquadram na realidade tanto da escola em que atua quanto de seus alunos?

Mary – As dificuldades são as de acesso aos equipamentos e sua disponibilização para uso, especialmente quando se consideram as dimensões da escola, de todas as salas de aula, todas as turmas, todos os tempos e espaços de implementação do processo de ensino-aprendizagem. Nesse aspecto, vale, novamente, assinalar que as tecnologias não são imperativos absolutos, são meios e recursos auxiliares que trazem contribuições, mas não substituem a relação necessária, indispensável, que se estabelece entre professores e alunos, seu diálogo, seu vínculo afetivo.

 

EF – São as suas considerações finais sobre o tema?

Mary – Elas apenas sintetizam as ideias já expostas, reafirmando que as tecnologias fazem parte do mundo contemporâneo, que seus avanços também fazem parte da evolução da ciência e da ampliação do campo da informática e do ambiente virtual. Entretanto, tratando-se de escola, conhecimento, valores, as ações docentes, a participação ativa dos alunos em seu processo de ensino-aprendizagem, os princípios pedagógicos de formação humana e de emancipação social são e serão cada vez mais relevantes. O uso de tecnologias na Educação deverá, portanto, estar orientado por esses mesmos princípios.

 

Sobre a entrevistada

 

É doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pós-doutoranda na área de Psicologia Social, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Professora Titular de Didática da Universidade Federal Fluminense (UFF). Titular da área de Ensino-Aprendizagem da UERJ. Coordenadora Pedagógica dos Cursos de Graduação do Centro Universitário La Salle e Ouvidora do Colégio La Salle Abel, de Niterói, RJ.

 

 

Fotos e texto: Revista Guia Prático do Professor – Ensino Fundamental Ed. 114