Que tal aprender libras?

Por José Oreste Lopes de Souza | Foto: Reprodução/goshen.edu | Adaptação web Caroline Svitras

 

O espaço pedagógico é, sem dúvida, o lugar da construção do conhecimento e da interação social, onde a Educação inclusiva de pessoas surdas deve ser vista como algo necessário para uma sociedade altamente excludente, que pouco sabe lidar com o processo de inserção e com a própria cultura surda. É por isso que, de acordo com a conjetura moderna, ainda se faz necessário conhecer um pouco mais sobre o processo de inclusão dos surdos na sociedade, uma vez que esse conhecimento nos permitirá reviver e construir, no contexto histórico, o processo identitário da comunidade deles.

 

 

Discussões sobre o tema

Nas reuniões pedagógicas e cursos de formação continuada para professores, a cada dia, discute-se mais sobre a surdez. Entre outras questões, a mais recorrente é como uma pessoa que tem deficiência Auditiva (DA) adquire o conhecimento? Mas o processo pelo qual ela faz essa aquisição parte exclusivamente da escola e das pessoas envolvidas no processo de ensino-aprendizagem. Logo, a escolarização e a inclusão devem realmente acontecer, pois é um direito constitucional da pessoa surda.

 

Foto: Reprodução/louisesattler.me

 

Por isso, saliento a necessidade de interação com o ambiente bilíngue. No entanto, é sabido que a maioria das escolas, principalmente da rede pública, ainda não oferece essa modalidade de ensino, pois vivemos em uma sociedade monolíngue, onde a Língua Portuguesa é a única modalidade de língua ofertada. Se, de fato, ocorressem políticas públicas que propusessem à escola o funcionamento em tempo integral (sonho idealizado pelo educador brasileiro Anísio Teixeira), bem como a oferta o ensino da Língua Brasileira de Sinais (Libras) para surdos no turno oposto ao regular, com certeza, teríamos um ensino bilíngue, pois, o que dificulta o processo de ensino-aprendizagem do surdo é a dualidade que a escola regular tenta lhe dar: de um lado, o ensino da Língua Portuguesa e, do outro, o ensino de Libras. Esse processo se torna para o surdo algo extremamente complexo, devido ao seu pouco conhecimento dos sinais e até mesmo da Língua Portuguesa.

 

Nos grandes aglomerados dos centros urbanos, a escola bilíngue até acontece, mas na realidade do interior ela é apenas um sonho. Em pesquisas realizadas em algumas Secretarias de Educação do interior da Bahia, por exemplo, constata-se que a escola bilíngue ainda não se faz presente. Existem até salas de Atendimento Especial Especializado (AEE), contudo, além de poucas nos municípios que oferecem esse atendimento, ainda faltam profissionais qualificados e preparados para tal atendimento.

 

Recebendo os novos alunos

 

Nesse sentido, torna-se pertinente que o professor tenha, no mínimo, um prévio conhecimento sobre a Libras e que esteja aberto para a busca de mais informações, em cursos de formação continuada ou de capacitação voltados à temática, pois só dessa maneira ele poderá oferecer à criança surda um diálogo inclusivo. Por vezes, percebemos que o docente até busca interagir, mas é difícil devido ao seu pouco preparo e nenhum conhecimento de Libras. Assim, o nível de aprendizagem do surdo se torna deficiente e cheio de lacunas. Portanto, a escola necessita urgentemente do auxílio de intérpretes e tradutores de Libras para que o professor possa tanto auxiliar a criança no seu pleno desenvolvimento estudantil quanto construir uma escola cidadã que preserva no seu cerne o respeito às diferenças.

 

 

 

 

O ambiente socializador

Ele é parte fundamental de um ensino que visa à qualidade e à compreensão dos discentes, com todas as suas potencialidades e individualidades no processo de aquisição de conhecimento. Logo, o ensino de Libras também é um divisor de águas, para que o surdo possa realmente adquirir total autonomia diante da sociedade. No caso do Brasil, a influência do alfabeto manual (datilologia) se deu a partir do alfabeto manual francês. Porém, os sinais em Libras têm suas próprias peculiaridades, que assumem uma gramática própria.Além disso, como uma modalidade viso-espacial, sua dinâmica não se dá apenas pelo conhecimento do alfabeto manual, pois, por si só, ele não garante a comunicação fluente com um surdo, principalmente porque ele é utilizado apenas em nomes próprios ou palavras que não têm um sinal correspondente. Já o estudo da Libras percorre várias situações que vão desde a maneira como se configura as mãos até a expressão que o rosto assume durante as mais variadas formas de comunicação.

 

Foto: Reprodução/wordsbythehandful.com

 

Outro fator importante nesse processo de inclusão do surdo na sociedade é a família, que deve buscar se apropriar de todas as maneiras para auxiliar a criança no processo escolar, pois os primeiros contatos por meio de sinais que o surdo manifesta sempre se dão junto ela. Nesse contexto, mesmo desconhecendo a Libras, a família acaba por usar artifícios para se fazer compreender e ser compreendida pelo surdo. Em muitos casos, ela chega até a utilizar tendências educacionais, todavia, sem distinguir o que é realmente viável para auxiliar a comunicação do DA.

 

Para finalizar, gostaria de deixar claro que, a inclusão não é apenas uma maneira solícita de “acolher” uma criança, apenas como um ser “diferente” – surdo. Incluir é ir além, é oportunizar a ela maneiras que possa interagir de fato com o ambiente escolar e, assim, construir dentro das suas potencialidades o próprio conhecimento de forma significativa e social.

 

Síndrome de Down em sala de aula

 

Tendências educacionais de grande importância para o estudo de Libras

Entre elas, temos o oralismo, a comunicação total e o bilinguismo. A tendência oralista (oralismo) força, por meio de estímulos, a criança surda a usar a voz, enquanto proíbe qualquer tipo de sinal com as mãos. A comunicação total utiliza gestos, mímicas e leitura orofacial para proporcionar a ela maneiras viáveis de comunicação. Já a tendência bilíngue (bilinguismo) utiliza as duas modalidades da língua, tanto a Libras quanto a Língua Portuguesa, para que a criança possa ter o pleno domínio da comunicação e, assim, possa também se apropriar da leitura e escrita.

 

 

 

*Graduado em Letras Vernáculas pela Universidade Estadual da Bahia (Uneb), é pedagogo pela Faculdade Zacarias de Góes (Fazag); Especialista em Língua, Linguística e Literatura pela Faculdade Batista Brasileira (FBB) e Educação a Distância (Uneb), além de mestre em Educação pela Universidad San Carlos (USC/PY). Atua como professor da rede pública municipal de Euclides da Cunha (BA), no Instituto de Educação O Farol do Conhecimento, no curso de Pedagogia e Letras da Fazag, na Formação Especial para Docentes (Fordec) e em cursos de capacitações. É tutor do Curso de Formação Pela Escola, docente convidado do projeto Plataforma Freire (Parfor) no curso de Pedagogia, polo de Monte Santo e Canudos (BA) na disciplina Libras, diretor-presidente da Associação Cultural Alma de Aprendiz Teatro, Circo e Dança e Coordenador da Quadrilha Junina Carcarás do Sertão.
Adaptado do texto “Libras, fundamental!”

Revista Guia Prático do Professor – Ensino Fundamental Ed.