Por que adotar o amor em sala de aula

Em uma aplicação do princípio da dignidade da pessoa humana

Por Ivo Dicácio Nideck* | Foto: Reprodução/coolage.in | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Sempre é muito positivo quando a abordagem do ensino acadêmico rompe a barreira dos seus muros e passa a ser inserida no contexto da sociedade que o compõe. E foi com esse propósito que produzi este artigo após a conclusão do curso de extensão oferecido pela Universidade Federal Fluminense – Niterói (RJ), denominado Educação, Espiritualidade e Sociedade, no ano de 2012, pela Faculdade de Educação. Porém, antes do ingresso no tema, vale lembrar que o Estado é descrito como resultado da composição de seu povo, seu território e sua soberania. Ocorre que, neste tempo, tem-se reivindicado a inserção da finalidade deste Estado nessa tríplice conjunção – ou seja, qual é o seu fim?

 

Assim, torna-se bem claro o objetivo lançado na atual Constituição no sentido de tornar a sociedade justa e solidária, como se recebesse “um farol” do lema perpetuado pela histórica Revolução Francesa, no que diz respeito à fraternidade a ser aplicada. Isso, sem dúvida, um reflexo do princípio maior sobre a dignidade da pessoa humana. Então, a finalidade do Estado, destinada a todos os que estão inseridos no seu solo e que ali “plantam” seus pés, visa alcançar o ser humano na sua singularidade, a fim de torná-lo digno na sua condição maior como pessoa humana.

 

Por isso o “convite” de se lançar o amor na Educação, como foi proposto no mencionado curso, para que se possa pensar nesse desafio não como um indicativo “apenas” sentimental, mas na implementação de ação, servindo-se, portanto, de um referencial teórico como exposto por Leo Buscaglia, em seu texto Rumo ao Amor, inserido na sua obra Amor com o objetivo de ser aplicado, de fato, na Educação como forma de ampliar a visão na permanente tarefa que se encontra o ser humano no processo de construção. Em tal texto, ele demonstra a possibilidade de se tratar o tema em qualquer espaço, mais precisamente no âmbito educacional, ainda que tenha que “alterar” sua temática para a abordagem, sem que abandone a grade curricular institucional. Assim, as aulas ou os encontros terão mais sentido, diz o autor, muito embora não haja como ensiná-lo, porém será possível facilitá-lo, visando o seu progresso.

 

Capa do livro Amor

 

Por se estabelecer no campo imaterial, Buscaglia se refere a esse fenômeno como infindável, sendo seu repasse contínuo ao ser compartilhado e quanto mais se tem, mais se doa, assemelhando-se com a área do saber, pois quanto mais se sabe, mais o educador tem para compartilhar. Por isso, a reivindicação do tema no campo científico tem sido um grande desafio para sua compreensão, pois a modernidade, ao sustentar a razão como base de todas as compreensões ao longo do tempo, ignora o tema amor, não o fazendo constar nas literaturas desenvolvidas ao longo do tempo.

 

O amor no encontro cotidiano

O ser humano amoroso é preocupado consigo, uma vez que o amor começa no próprio ser e, sendo ele o primeiro receptor, torna-se, ao mesmo tempo, espontâneo e sensível. Dessa forma, ele o entregará ao outro ao perceber a singularidade daquele que se apresenta diante de si no encontro cotidiano e, em consequência, modificará a estrutura que compõe com a projeção do amor, pois facilitará a convivência no seu ambiente.

 

Os espaços em que o indivíduo circula para sua atuação, mesmo que reconheça o poder nas relações ali estabelecidas, onde todos têm suas significações, perfazendo a rica pluralidade, com amor, é possível perceber a real destinação do poder”: para quê? Quais as possibilidades que podem ser emanadas por ele? Não há como negar que o amor causará uma nova direção na história, no ambiente social e cultural, no espaço temporal e com projeção significativa no por vir, alcançando futuras gerações.

 

Quanto às ferramentas para sua utilização, elas devem ser descobertas ou redescobertas, pois há sempre algo novo a ser feito hoje e esse novo será criado ou recriado pelo amor, pois por ele se cria e renova-se em todo o tempo, sempre com muita responsabilidade, sem abandonar qualquer sistema estabelecido, pois, por meio dessa energia, não há como se iludir com a falsa perenidade exibida pelos valores materiais, já que o amor não se acaba e sempre será aplicável ao ser em construção, de geração em geração, em um processo contínuo, mas que requer ação humana (trabalho), pois não há modificação de qualquer estrutura pela simples mágica. Para tanto, basta aproveitar as datas comemorativas previstas no calendário escolar, mas sem desconsiderar sua efetiva permanência no ambiente que se dá os encontros diários.

 

Como se observa, a proposta apresentada pelo autor em comento apresenta amplo conteúdo pedagógico para a formação do ser humano, muito embora tenha se destacado que a aplicação do tema amor possa ser utilizar de qualquer espaço. Portanto, concluí-se em linhas principais que ele é infindável ao ser compartilhado, que há desafios para sua aplicação, mas que resultam na modificação do ambiente, tornando possível a percepção da real destinação do poder hierárquico estabelecido nas relações e que se aplica com a utilização de um instrumental em aberto, mas sempre por meio da ação humana responsável a ser instaurada.

 

Não se trata de lançar um olhar simpático ou amigo apenas, conforme menciona o professor Clèmerson Merlin Clève em Para uma dogmática constitucional emancipatória, ao propor a ampliação na compreensão da Constituição brasileira, desafiando sua releitura para que se perceba “novas soluções, novas interpretações e novas construções conceituais”,  pois ele afirma que “este é o grande desafio contemporâneo” e não há dúvida que a sociedade está em crise e, nesse ambiente, o ser humano, com sua singularidade e potencialidade, deve ser acolhido pelo amor, principalmente, no seu processo de formação. Esse é o desafio! Portanto, percebe-se que o amor não pode ficar de fora de qualquer ambiente e muito menos na Educação. Então, mãos à obra!

 

*Ivo Dicácio Nideck é bacharel em Direito e Teologia, é pós-graduado em Docência do Ensino Superior e pós-graduando em Direito Público e Tributário. Atualmente, exerce o cargo de Analista Judiciário no Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro.

Adaptado do texto “O amor na educação”

Fotos: Revista Guia Prático do Professor – Ensino Fundamental Ed. 116