Estimule a vontade de aprender

A prática que hoje é tão difundida surgiu no início do século passado, graças às concepções do renomado educador norte-americano John Dewey

Foto: The British Museum | Adaptação web Caroline Svitras

 

Por volta de 1904, ele já defendia que era de vital importância que a educação não se restringisse ao ensino do conhecimento como algo acabado, pois todo o saber e as habilidades que os alunos teriam que adquirir no período escolar, além de significativos, deveriam se integrar à sua vida como cidadão, pessoa, ser humano. De acordo com essa concepção, para colocar a teoria em prática, junto à esposa Alice, John Dewey implantou e dirigiu um laboratório-escola na Universidade de Chicago.

 

Nele, desde cedo, crianças experimentavam e aprendiam conceitos de física e biologia, presenciando e executando uma série de processos, incluindo o preparo de lanches e de refeições, que eram feitos na própria classe. Aos poucos, enquanto suas ideias se tornavam bastante populares, alguns dos seus valores e premissas começaram a se difundir. Mas nunca eles foram integrados na totalidade nas escolas públicas norte-americanas.

 

Anos depois, já no período de Guerra Fria, quando a maior preocupação norte-americana era a de criar e manter uma elite intelectual, científica e tecnológica para fins militares, suas concepções começaram a ser severamente criticadas, a ponto de serem deixadas de lado. Contudo, no período seguinte – que, por sua vez, é chamado pós-guerra-fria – seus preceitos sobre educação ressurgiram, evoluíram e influenciaram a reforma do sistema teórico de muitas escolas.

 

Foto: ctools.umich.edu

 

Atualmente, a escola visa formar cidadãos participativos na sociedade, mas para alcançar esse objetivo, de início, ela precisa desenvolver a autonomia nos alunos. Apesar de existir uma série de recursos que atende essa finalidade, entre eles se destaca a Pedagogia de Projetos, que é um instrumento de fácil operacionalização, cuja metodologia de trabalho tem por objetivo organizar a construção dos conhecimentos em torno de metas pré-definidas, de forma coletiva, entre alunos e educadores.

 

Como recurso didático, o projeto se torna atraente porque, além de dar vida a um conteúdo, ele minimiza o papel do professor, enquanto valoriza o desejo dos alunos em aprender. Dessa forma, a atividade de cada criança também se torna determinante na construção do saber, que é edificado a partir da interação com os outros e com meio ao seu redor. Nesse contento, cabe ao educador apenas estimular, observar, mediar, criar situações de aprendizagem significativa e produzir perguntas pertinentes que façam os alunos pensarem a respeito do conhecimento que se espera construir.

 

 

Etapas de um projeto

Intenção – Na primeira etapa, o professor tem que organizar e estabelecer objetivos, de acordo com as necessidades de seus alunos para, depois, se instrumentalizar e problematizar o assunto, visando direcionar a curiosidade das crianças para a montagem do projeto.

Preparação e planejamento – Na segunda fase, além de planejar o desenvolvimento do projeto em si, a partir das atividades principais e da coleta do material de pesquisa, ele deve definir o tempo de duração, as estratégias essenciais para realizá-lo e como se dará o encerramento dos estudos sobre o tema. Em paralelo, junto aos alunos, ele tem que elaborar um registro de conhecimentos prévios (o que já é sabido), de dúvidas, de questionamentos e de curiosidades (o que se quer saber). Em seguida, ainda se faz necessário determinar as fontes de pesquisas, nas quais será possível encontrar respostas aos questionamentos que se evidenciaram.

Desenvolvimento – Na terceira fase, começa a realização  das atividades planejadas, que deve contar com a participação ativa dos alunos. Como eles serão os verdadeiros sujeitos da produção do saber, lembre-se que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para sua construção. Por isso, também se torna imprescindível realizar, periodicamente, relatórios parciais orais ou escritos a fim de acompanhar o desenvolvimento do tema.

Apreciação final – Na quarta fase, é necessário avaliar  os trabalhos que foram programados e desenvolvidos, dando oportunidade ao aluno de verbalizar seus sentimentos sobre o desenrolar do projeto. Desse modo, a turma se organiza, constrói saberes e competências, opina, avalia e tira conclusões coletivamente. E é essa interação que promove o crescimento tanto no âmbito cognitivo quanto no social, afetivo e emocional.

 

Foto: ctools.umich.edu

 

Problemas comuns na implementação de projeto

Nenhuma abordagem, por mais sofisticada que seja, assegura o êxito de um projeto. Muitas vezes, um detalhe põe tudo a perder. Observe os problemas que devem ser evitados:

Objetivo confuso – Projetos com objetivos confusos têm alta probabilidade de fracassarem, em virtude de várias causas:
1. A pressa em iniciar o trabalho: ela faz com que o problema não seja estudado nem entendido corretamente.
2. Quando coordenador e equipe não entendem o problema: eles acabam fazendo suposições incorretas sobre o resultado a ser alcançado.
3. O objetivo pode ser claro, mas não coerente com o problema: nesse caso, o resultado a ser alcançado acaba por se tornar incompatível com o problema.

 

Execução confusa – As condições de execução podem se tornar confusas, em virtude de (a):
1. Regras de decisão imprecisas: não há estratégias nem procedimentos para resolver problemas e conflitos.
2. Atividades que não são coerentes com o objetivo:
Podem ocorrer mesmo quando o problema e o objetivo são coerentes)
3. Indefinição das intenções básicas do projeto: a atividade avança muito, mas não apresenta coerência com a proposta inicial.
5. Falhas na execução: projetos podem ser muito bem planejados e organizados, mas isso ainda não é garantia de sucesso. Entre as falhas na execução, uma das mais comuns ocorre quando algo importante se destaca, mas todos acham que alguém vai cuidar dessa parte e ninguém o faz, por falta de indicação.

 

 

Criar um projeto é definir um resultado a ser alcançado

Existem situações em que os resultados de um projeto são fáceis de definir. Em meados de maio, por exemplo, muitas escolas começam a pensar na festa junina. Mas para que ela não seja apenas um evento, é possível desenvolver um projeto para planejar, organizar e realizar uma celebração que envolva toda a comunidade escolar na tradição popular, mas de uma forma contextualizada, que possibilita um enfoque enriquecedor que se amplia de acordo com o interesse dos alunos e ainda  seja capaz de envolver a família e a comunidade no mesmo processo. Nesse caso, os resultados são bem definidos e orientam o planejamento e a implementação do projeto. Observe:

 

• Para fazer uma festa junina é preciso escolher uma data e, em seguida, pensar nos preparativos: decoração da escola, quadrilha, venda de refrigerantes e comidas (quais?), jogos (a definição dos entretenimentos requer pesquisas, conhecimento para incluir atividades coerentes) etc.

• É preciso pensar na divulgação externa (preparar faixas, cartazes; usar a rádio local, o jornal do bairro; enviar cartas aos pais e responsáveis); e ainda estabelecer comunicação interna entre os alunos, professores e funcionários.

• Em muitas escolas também pode ser necessário pedir a presença de policiais para evitar ocorrências indesejáveis.

 

 

A implementação do projeto e a avaliação permanente

Para cada um dos itens mencionados é preciso haver pessoas que se responsabilizem por sua resolução, porque o projeto em si, só se torna realidade, quando diversos envolvidos já estão em plena atividade, em busca da resolução dos problemas, tomando providências, realizando tarefas necessárias aos objetivos, entre outras. Durante esse período de implementação, ainda é muito importante que a equipe liderada pelo coordenador, mantenha-se atenta à execução do cronograma. Para tanto, ela deve acompanhar todo o movimento, para se certificar se o que foi imaginado está sendo realizado.

 

Essa preocupação com a avaliação deve estar presente o tempo todo: da execução do cronograma à conclusão do projeto. No entanto, diante de uma tarefa que, por exemplo, deveria estar finalizada em uma semana e no transcorrer desse período ainda não apresenta perspectivas de ser resolvida, cabe ao coordenador chamar o responsável, verificar o que está acontecendo, questionar se há algum problema relacionado com a própria tarefa e se tudo será resolvido no prazo previsto. Por conseguinte, como a avaliação permanente deve se concretizar em ações corretivas, o coordenador deve tomar as providências necessárias para que a tarefa seja realizada no prazo.

 

Adaptado do texto “Pedagogia de Projetos”

Guia Prático do Professor – Ensino Fundamental Ed. 96