Como lidar com alunos bagunceiros

Na atualidade, tal situação é apontada como um dos fatores que mais interfere na relação pedagógica das diversas disciplinas

Foto: Itaci Batista | Adaptação web Caroline Svitras

 

No cotidiano escolar, torna-se corriqueira a reclamação de insatisfação dos docentes pela inquietude dos alunos, ocasionada e demonstrada pela indisciplina que prejudica, além do desenvolvimento das atividades previamente planejadas, todo o processo de ensino-aprendizagem que a escola busca desenvolver. Diante dessa situação, como os professores devem lidar com as crianças, sem provocar grandes conflitos nas salas de aula? Em busca dessa resposta, entrevistamos Clovis Brito, estudioso do tema, autor e organizador do livro Indisciplina Escolar.

 

Guia Prático para o professor do Ensino Fundamental I – Atualmente, como a indisciplina escolar pode ser definida?

Clovis Brito – Apresentar uma definição sobre o que vem a ser a indisciplina dentro do ambiente escolar não é uma tarefa fácil. Tal complexidade também é constatada por outros pesquisadores, que, assim como eu, consideram a indisciplina escolar um fenômeno complexo, dotado de grande magnitude e que, na atualidade, sofre mutações que a diferenciam daquela observada em outros tempos. Se anteriormente a indisciplina escolar era pensada somente como uma questão de comportamento e, dessa maneira, resolvida,hoje, entendo-a como atitudes de insatisfação que os alunos expressam quanto a uma situação ocorrida na relação pedagógica entre os sujeitos escolares, ocasionada por diversos fatores. Entre esses fatores, posso mencionar as relações que se desenvolvem entre aluno x aluno, professor x aluno, aluno x escola; a insatisfação com o conteúdo desenvolvido; o currículo praticado etc. Desse modo, o aluno indisciplinado não é apenas aquele cujas ações rompem com as regras da instituição, mas também aquele que prejudica o seu próprio desenvolvimento cognitivo, moral e atitudinal. Logo, aquele aluno quietinho, que fica no seu canto e não perturba o professor, também pode ser considerado indisciplinado, pois está se negando ao envolvimento na relação pedagógica.

 

EF – Como e por que a indisciplina escolar se dá?

Brito – Partindo do pressuposto que a indisciplina escolar é um fenômeno muito mais complexo que aquele visualizado no senso comum, no qual somente o aluno é o culpado, defendo que a indisciplina escolar não apresenta uma causa única, ou mesmo principal, mas uma mistura de fatores que devem ser pensados. Sendo assim, ela é ocasionada, enquanto uma manifestação que interfere no processo ensino-aprendizagem, tanto pelos discentes como pelos docentes. Pelos alunos, pode ser manifestada pela passividade gerada por uma sociedade violenta que naturaliza os problemas sociais, tornando-os pouco participativos e espectadores em salas de aula; ou pelos professores que impõem uma disciplina autoritária e utiliza as avaliações como forma de punição, gerando, dessa maneira, situações de conflito na relação pedagógica.

 

EF – O professor chega a colocar em dúvida sua competência perante uma turma indisciplinada?

Brito – A indisciplina escolar é considerada como um dos principais problemas nas escolas; é o que faz com que alguns professores se sintam ansiosos antes de entrar na sala, durante e depois das aulas. Esse estresse é o fator mais influente no fracasso deles, levando, inclusive, a fazer com que alguns docentes desistam da profissão por não saberem lidar com tais situações. Acredito que isso ocorra porque alguns professores ainda estão se preparando – lá na graduação – para uma escola que não existe mais, que ficou em épocas passadas. Uma escola onde professores e alunos tinham posições definidas, “cada um no seu lugar”. Como resolver tal questão? Participando de discussões sobre o tema, conversando com professores mais experientes e percebendo que a indisciplina sempre esteve e sempre estará presente no ambiente educacional. O que os professores ainda necessitam é aprender a lidar com ela.

 

EF – Existe algum recurso pedagógico ou estratégia apropriada para conter os alunos?

Brito – Não existe uma receita pronta para conter os alunos ou as manifestações de indisciplina escolar. Existem possibilidades que devem ser construídas e discutidas em cada realidade escolar. Uma dessas possibilidades é perceber que a indisciplina escolar pode ocorrer pela forma como os professores abordam determinados conteúdos: de maneira autoritária e descontextualizada. Os alunos rotulados como indisciplinados, nesse caso, são os que demonstram uma insatisfação com as metodologias desenvolvidas, pois em uma elas se afastam de seus cotidianos, configurando-se em uma incompatibilidade de expectativas entre professor-aluno. Assim, os alunos manifestam sua insatisfação transgredindo as normas disciplinares que os docentes almejam para aquele encontro pedagógico. Outra estratégia possível é a construção e a discussão, junto aos alunos, de regras para um bom funcionamento de uma aula. Mas o que é um bom funcionamento de uma aula? Quais são os objetivos daquele encontro? Quais são as funções dos agentes na relação pedagógica? Cabe aos atores envolvidos naquele encontro – professores e alunos – determinarem essas respostas e construírem os compromissos para minimizarem a indisciplina escolar. Indiferente da estratégia que os docentes criam e utilizam para conter a indisciplina escolar,  ela vai acontecer, em maior ou menor escala, de uma ou outra maneira, em todas as matérias e níveis de ensino. Ela pode se transformar, apresentar-se em novos formatos, mas ainda estará lá, presente nas salas de aulas, queiramos ou não. Por isso, não devemos buscar extinguir esse fenômeno, pois tal busca apenas causaria mais frustração nos docentes.

 

EF – Quais seriam suas considerações finais sobre o tema?

Brito – A indisciplina, dentro da sala de aula, deve ser olhada pelos docentes não somente com uma  conotação negativa, mas também de maneira positiva; aquela em que ela passa a ser aliada da prática pedagógica. Ao deixarmos de analisar a indisciplina somente como um problema, podemos torná-la produtiva; ao superarmos essa visão e nos dispormos  a realizar uma leitura mais profunda dela, poderemos concebê-la como um fenômeno rico de significados, capaz de elucidar e redimensionar a prática docente. Sendo assim, a indisciplina presente no contexto da escola é um elemento que pode ser pensado como oportunidade de revisão, de reflexão, como possibilidade de reinvenção da prática pedagógica das nossas escolas.

 

Sobre Clovis Brito

Mestre e doutorando em Educação, é integrante da linha de pesquisa Indisciplina na Educação Contemporânea, da Universidade Tuiuti do Paraná, tema que estuda desde 2005 e que lhe conferiu capacitação para publicar diversos artigos, participar de seminários e congressos nacionais e internacionais e proferir palestras para docentes, inclusive em Portugal, onde estagia na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. Além disso, também é professor da rede pública federal e atua no Colégio Militar de Curitiba.

 

Adaptado do texto “Indisciplina escolar”

Revista Guia Prático do Professor – Ensino Fundamental Ed. 109