Inclusão de crianças portadoras de deficiências

A educação inclusiva deveria acolher todas as crianças sem exceção, para promover a convivência e a aceitação sem nenhum tipo de preconceito

Fotos: kidpower.org | Adaptação web Caroline Svitras

 

A atual Lei nº 9.394/96 de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, no artigo 59, preconiza que os sistemas de ensino devem assegurar aos alunos currículo, métodos, recursos e organização específicos para atender às suas necessidades, além da terminalidade específica aos que não atingiram o nível exigido para a conclusão do Ensino Fundamental, em virtude de suas deficiências. Mas será que as escolas estão preparadas para transformar tais dizeres em ações? Em busca de respostas, consultamos Fátima Alves, que nos mostra os requisitos necessários para que qualquer instituição de ensino se torne realmente inclusiva.

Guia Prático para o Professor do Ensino Fundamental I – De que forma a escola deve se adaptar e preparar os professores para trabalhar com crianças com algum tipo de deficiência?

Fátima Alves – A escola deve ter um ambiente onde as crianças possam sentir-se bem, amadas e sempre alegres. Portanto, ela deve cumprir as leis, ter uma proposta pedagógica, instrumentalizar-se, ter espaços adequados, respeitar as normas comuns, elaborar uma intencionalidade educativa e fazê-la se realizar de forma a atender os alunos dentro dos critérios de crescimento intelectual, social e humano. Ela ainda tem que repensar o valor do aluno deficiente, promover o seu acesso, permanência e sucesso. E, ainda, deve criar estruturas e programas de apoio aos professores, capacitar e remunerar adequadamente, pois a formação docente implica em um processo contínuo, que precisa ir além da presença do professor em cursos que visam transformar sua ação no processo ensino-aprendizagem. Consequentemente, faz-se necessário ao docente ser ajudado a refletir sobre a sua prática, para que compreenda suas crenças em relação ao processo e se torne um pesquisador de sua ação, na intenção de aprimorar o ensino oferecido em sala de aula ou mesmo na escola como um todo. Também é necessário formar um profissional transformador, que reconheça e aceite a diversidade, preparado para enfrentar desafios e propor soluções, que entenda seus alunos, saiba diferenciar um a um e respeitar o ritmo individual deles.

EF – Dá para atender na mesma de sala de aula um aluno portador da síndrome de Down junto a um surdo, por exemplo, ou é preferível separar as crianças de acordo com o tipo de deficiência que apresentam para facilitar o trabalho docente?

Alves – Em primeiro lugar o tratamento para o portador de Síndrome de Down ou qualquer outra criança com deficiência deve ser de relevância. Todos devem ser estimulados a manter relação de igualdade com as demais crianças, não devendo, em nenhuma hipótese, ser rotulados. Muitas vezes, para enfrentar momentos que fogem da rotina, faz-se necessário compreender que cada criança tem suas próprias características. Por isso é interessante procurar conhecer cada uma para buscar soluções, na tentativa de levá-las a pertencer à mesma sala de aula, mesmo com diferentes deficiências. Ter o tamanho da turma reduzido e contar com um auxiliar é um benefício essencial para que haja a possibilidade de compor uma sala de aula com crianças de diferentes deficiências. Não há uma regra em relação ao número de alunos com deficiência que pode estar em uma mesma turma, mas em geral podem existir dois ou, em alguns casos, três por sala. Vale lembrar que a proporção de pessoas com deficiência é de 8 a 10% do total da população. Acredito que a convivência de alunos deficientes com crianças de classes regulares é benéfica e que ambos os lados só têm a ganhar. A troca sempre é rica e importante. As diferenças existem em todo lugar, mesmo em classes sem crianças especiais, porque os interesses e as habilidades dos alunos são outros. E é muito bom a criança aprender a perceber isso desde cedo.

EF – Quando a equipe gestora percebe que o potencial do aluno com deficiência o impede de aprender, como ela deve explicar tal fato aos pais, que sempre esperam mais da escola e dos próprios professores?

Alves – Em primeiro lugar é fundamental que a escola não confunda o aluno deficiente com um ser bagunceiro, preguiçoso ou que tem uma simples desatenção em sala de aula. Pode estar ocorrendo uma dificuldade gerada por uma série de problemas cognitivos ou emocionais, que afetam qualquer área do seu desempenho escolar. Porém, se, por um lado, informar os pais sobre as dificuldades que o filho está apresentando não é tarefa fácil, por outro, é extremamente necessário fazê-los saber, até para poderem trabalhar junto à escola em prol da criança. No entanto, como a informação levada a eles pode alterar a dinâmica familiar, gerando preocupação e insegurança a respeito do futuro da criança, ainda é essencial que a escola explique que, apesar dos filhos possuírem uma inteligência normal, eles são crianças que não conseguem aprender da mesma forma que outras, pois têm um perfil cognitivo diferente, um estilo desigual de instruir-se, mas, nem por isso, são menos criativas e capazes que as demais. Por isso, também é importante que a escola tenha uma orientação a ser dada a família, como qual profissional ela deve procurar para minimizar os problemas.

 

EF – Como os docentes devem agir para favorecer a autoestima e o desenvolvimento tanto cognitivo quanto social do aluno portador de deficiência?

Alves – O grande favorecedor para a autoestima e o desenvolvimento do aluno é a motivação. Graças a ela, o professor também acaba descobrindo melhores estratégias e recursos. A partir daí, os estímulos fornecidos ainda farão com que a criança se sinta motivada a aprender. É dar prazer para que ela tenha o desejo de querer mais e vontade de realizar. Em consequência, ainda deve-se aproveitar o que o aluno já tem como informação, vivência e experiência. Além disso, o carinho, o bom relacionamento, o clima de harmonia, o saber ouvir e o não preconceito ainda irão fazê-lo se sentir mais acolhido.

EF – Teoricamente já é sabido que inclusão beneficia a turma toda, mas, na prática, como mostrar as crianças que elas devem receber de igual para igual, mas sempre respeitando as diferenças, o coleguinha deficiente?

Alves – Precisamos ter a capacidade de entender e reconhecer o outro, para depois o levarmos ao convívio com outras pessoas. Mas não deve haver exceção, incluir é estar, é interagir com o outro. Não devemos ter pena, mas falarmos sobre as similaridades, ensinar que a criança com deficiência é mais parecida com todas do que diferente, mostrar o quanto é bom a amizade com ela, que pode e deve haver comunicação entre a turma toda. Além disso, ainda é preciso explicar que, se a criança com deficiência não consegue responder a uma solicitação, ela irá se expressar de alguma forma. Nós não precisamos complicar as coisas, devemos fazer sentido, facilitar o entendimento, ensinar o respeito às crianças com os próprios atos, ajudá-las a ver que, mesmo aquelas que não falam, entendem.

EF – Como as escolas podem se valer das ações governamentais para se tornar realmente inclusivas?

Alves – Em primeiro lugar, gestores e professores devem ter o desejo de compreender, ajudar, aprender o que fazer, o que é e para quê a inclusão. Depois, para dar início ao processo de implantação da educação inclusiva se faz necessário algumas ações importantes, como ter profissionais capacitados, oferecer formação para os professores, reformar as unidades de ensino para facilitar o acesso, ter a transversalidade da educação, oferecer atendimento educacional especializado, fazer um levantamento da situação, dos mobiliários e equipamentos e ainda engajar a comunidade escolar na acessibilidade urbanística e arquitetônica, nos transportes, na comunicação e informação. As escolas inclusivas não devem ser apenas espaços de integração, pois a criança com deficiência deve estar inserida no projeto de inclusão. Entre outras coisas, as escolas devem estar cientes que o funcionário que recebe a criança no portão, deve ser uma pessoa que tenha noção das limitações que ela pode ter, para dar suporte para sua entrada e saída da escola. Já os professores devem encontrar maneiras de cativar o aluno, inseri-lo nas atividades e fazer com que efetivamente participe delas, pois cada criança possui uma habilidade que deve ser explorada. De um modo geral, as escolas têm que encontrar um jeito de educar com êxito todas as crianças, inclusive as que têm deficiências graves.

 

Adaptado do texto “D eficiência”

Revista Guia Prático do Professor – Ensino Fundamental Ed. 142