Linguagem formal e informal

Quando se vive em sociedade, é preciso ter sensibilidade para adaptar a fala a certas situações, mas isso também não significa “assassinar” o português, idioma oficial do Brasil

Fotos: Fernando Pereira | Adaptação web Caroline Svitras

 

Quem se comunica pode usar duas formas de linguagem: a formal e a informal. A primeira é aquela que tem como base as normas gramaticais. Como ela é tida como uma linguagem culta, normalmente, o seu emprego se dá em situações mais formais que, no caso das crianças, incluem a escola e outros ambientes que frequentam, principalmente se há adultos, a quem devem respeito e Educação, neles. Embora haja certa associação entre a linguagem formal e o pedantismo, os alunos também devem saber que isso é apenas um mito propagado pelos que não tem a mínima vontade de aprender nem seu próprio idioma.

 

Já o padrão informal da língua é aquele usado em situações que não requer tanto rigor, como nas conversas com amigos, com a família ou em meio a comunidades específicas. Mas isso também não significa, entre outros exemplos, falar “nóis vai”, porque, assim, o erro é perpetuado e repetido em uma espécie de círculo vicioso que não permite a evolução cultural nem do falante nem do ouvinte.

 

Avaliação psicológica na escola

 

Por outro lado, como também não existe um padrão certo ou errado para se comunicar, cada aluno deve ter sensibilidade para adaptar sua própria fala à situação em que se encontra. Mas isso também só poderá acontecer se ele tiver o mínimo de conhecimento sobre o nosso idioma.

 

Teoricamente, fazer essa distinção parece muito fácil, mas, para que a turminha possa assimilar ambos os conceitos, é necessário apresentar muitos exemplos a ela. Por isso, apesar daqueles que insistem em dizer que a linguagem sempre foi utilizada para “separar o joio do trigo” e das discussões em torno da estrutura linguística do funk, estilo musical que já faz parte do universo infantil, que tal utilizar o primeiro sucesso do MC Guimê, Plaquê de 100 (composto por ele e pelo rapper Emicida, ambos paulistas), para trabalhar tais aspectos em sala de aula?

 

 

O desenvolvimento do trabalho

De início, coloque na lousa a estrofe da música, cuja linguagem, independentemente das hipóteses que são levantadas por aí, deve assumir apenas um aspecto informal:

Contando os plaque de 100, dentro de um Citroën,
Ai nois convida, porque sabe que elas vêm.
De transporte nois tá bem, de Hornet ou 1100,
Kawasaky, tem Bandit, RR tem também

O que os alunos querem aprender?

• Para estimular a criançada, que vai ficar surpreendida com tal iniciativa, deixe que a cantem (se quiserem ou souberem). Contudo, aproveite a descontração criada pelo momento para questionar o que é plaque de 100 (designação informal para um pacote de notas de R$ 100,00).

1. Dependendo do nível socioeconômico da escola, a maioria dos alunos não saberá, porque é bem comum repetir o que se ouve sem questionar o significado daquilo que acaba sendo memorizado naturalmente. Deixe isso bem frisado, para aguçar a curiosidade infantil em casos semelhantes. Então, explique que o termo é usado somente por comunidades específicas, para que a criançada possa entender que na escola ou em casa, utilizá-lo é apenas uma perda de tempo para se referir a uma boa quantidade de dinheiro ou pedir uma nota.

2. De modo objetivo, se o pai tem um pacote de notas de R$ 100,00 ou de qualquer outro valor, é mais fácil pedir uma delas do que insistir em dizer que com “tamanho plaque, uma não fará falta”.

3. Além disso, a partir dessa informação, ainda é possível fazê-los entender o significado real da primeira linha da estrofe da referida música.

 

 

• Após, parta para a segunda linha da estrofe: Ai nois convida, porque sabe que elas vêm.

1. Para começar, peça para que grifem todos os erros de português, em relação à linguagem formal, que encontrarem (nois, convida e sabe).

2. Em seguida, questione por que tais erros foram apontados, a fim de abordar tanto as incorreções ortográficas (nois / nós) quanto a colação pronominal (nois convida / nós convidamos), bem como a conjugação verbal (convida / convidamos; sabe / sabemos).

3. Na sequência, explique que qualquer pronome deve combinar em número (singular ou plural), gênero (masculino e feminino) e pessoa verbal para, então, pedir que reescrevam a segunda linha da estrofe de maneira correta, na intenção de fazê-los sentir que, até na linguagem informal, certos erros podem ser abolidos, sem ferir a descontração do que se quer comunicar (Aí, nos convidamos, porque sabemos que elas vêm).

 

A importância da lição de casa

 

• Prosseguindo, repita todo o processo para a terceira e quarta linha da estrofe: De transporte nois tá bem, de Hornet ou 1100 / Kawasaky, tem Bandit, RR tem também.

 

• De acordo com esse esquema, dependendo do interesse da criançada, trabalhe o restante da música.

 

• Na sequência, já na intenção de evitar possíveis polêmicas, inclusive extraclasse, explique que, no caso das músicas e das poesias, existe a chamada licença poética, que permite ao autor extrapolar o uso da norma culta e até cometer incorreções de linguagem para aproximar sua obra do povo ou, no caso do funk, de uma comunidade específica que vem angariando adeptos no país inteiro a cada dia que passa.

 

• Por fim, peça para a criançada reescrever a estrofe utilizada tanto de maneira formal quanto informal, para que possam tanto assimilar os conhecimentos na prática quanto perceber que há mil maneiras de dizer a mesma coisa, utilizando estilos linguísticos diferentes de acordo com o que a situação exige sem incorrer em erros drásticos.

 

Revista Guia Prático do Professor – Ed. 123