Hiperativa ou mal-educada?

Além de promover o processo ensino- aprendizagem, ainda cabe aos professores auxiliar no diagnóstico de ambas as situações

Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Rotular o aluno com dificuldade de aprendizagem antes de procurar a verdadeira causa para o desinteresse é um problema recorrente. Embora algumas escolas particulares já prestem atenção no assunto, ainda não existe nenhuma entidade de ensino especializada em alunos com TDAH nem professores que aceitam pacificamente a má educação das crianças. Contudo, se na esfera pública, o projeto de lei 07081/2010 – que foi vetado na Câmara – previa um programa de diagnóstico e tratamento de TDAH (e dislexia) para alunos da rede pública de Educação Básica, para crianças mal-educadas só há uma solução: a atenção da família.

 

Mas, nas escolas da periferia, a maioria dos pais não percebe mudanças bruscas ou graduais no comportamento da criança. Poucos se questionam se aconteceu alguma coisa para deixar o filho mal-educado, desatento ou hiperativo etc. Raros se mostram disponíveis para tentar compreender os problemas pelos quais ele passa e, então, pedir ajuda ao profissional adequado. Logo, cabe ao professor observar, identificar e, depois, comunicar aos responsáveis, o que acontece com a criança. Por isso, entrevistamos Ana Cássia Maturano, psicóloga e psicopedagoga, que evidencia as características de um aluno com TDAH, para que seja possível fazer uma diferenciação entre aqueles que só precisam de mais educação e zelo familiar.

 

Guia Prático para Professores de Ensino Fundamental I – O que é hiperatividade?
Ana Cássia Maturano – Atualmente conhecido como transtorno do déficit de atenção/hiperatividade, ou TDAH, é um transtorno em que o indivíduo tem dificuldade de permanecer muito tempo em uma atividade. Assim, ele passa de uma para outra sem concluir nada. Geralmente está associado à falta de atenção e impulsividade.

 

Ana Cássia Maturano é psicóloga clínica, psicopedagoga e colunista de Educação do Portal de Notícias da TV Globo (www.g1.com.br). Contato: cmaturano@hotmail.com | Foto: Arquivo pessoal

EF – Quando e como o transtorno se manifesta?

Ana Cássia – O TDAH se manifesta na infância e é mais comumente percebido quando a criança entra na escola. Porém, a manifestação de agitação, desatenção e impulsividade também são características infantis. Além do mais, pode ser resultado de uma situação vivenciada pela criança, que enfrenta problemas familiares, morte de alguém ou até uma falta de adaptação ao sistema educacional. Portanto, para se considerar os sintomas como de hiperatividade, é necessário que o comportamento seja observado por um bom tempo na vida da criança, em várias situações e ambientes e que lhe traga algum prejuízo. Não é toda agitação e rapidez em fazer as coisas que significa hiperatividade. Quando surge em apenas um ambiente, como o familiar por exemplo, é necessário analisar tudo que está propiciando o comportamento. Dependendo do meio-ambiente ou da falta de estrutura familiar, a criança fica mais agitada e se ela já apresenta suspeita de TDAH, o transtorno pode se agravar.

 

EF – Quais são suas principais causas?
Ana Cássia – Não se conhece uma causa que explique a ocorrência da hiperatividade, porém, é bastante aceita a influência de fatores genéticos e ambientais.

 

EF – Quais são as características e o comportamento escolar de uma criança hiperativa?
Ana Cássia – Em geral, as hiperativas são desorganizadas, esquecem facilmente as coisas, não param sentadas, parecem não escutar o que lhe dizem, não terminam as atividades e se dispersam facilmente. Falam em demasia e apresentam dificuldades para esperar o outro se pronunciar ou para aguardar e responder algo.

 

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EF – O problema influi na capacidade de aprendizagem do aluno?
Ana Cássia – Sim. Para aprender é necessário um mínimo de organização e atenção. Atenção ao que é dito e um tempo de elaboração. Além de não prestarem atenção, as hiperativas são rápidas em suas respostas, mas não param para pensar sobre o assunto. O que é diferente de uma criança com raciocínio rápido.

 

EF – Qual é o especialista que diagnostica o problema?
Ana Cássia – Os mais indicados são o neurologista ou o psiquiatra.

 

EF – Quando os pais ignoram o problema, como os professores devem agir para ajudar a criança?
Ana Cássia – Os pais devem ser alertados e encaminhados para algum serviço de neurologia. Cada escola, em sua devida comunidade, pode indicar o serviço médico oferecido pelo setor público, por exemplo.

 

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EF – Qual a diferença entre uma criança mal-educada e uma hiperativa?
Ana Cássia – A criança mal-educada não consegue respeitar os limites. Em interação familiar, observa-se que seus pais têm dificuldade em lhe dar os limites necessários, mas, necessariamente, ela não é agitada, desatenta ou impulsiva. Ela apenas não tem os parâmetros sociais. Muitas vezes, seu comportamento é de oposição. Por isso, é necessário um diagnóstico bem criterioso, no qual se observa o ambiente em que tal comportamento se manifesta e os demais aspectos que definem a hiperatividade.

 

EF – Quando pais de crianças mal-educadas alegam que seus filhos são hiperativos, como mostrar o contrário a eles?
Ana Cássia – Um bom meio é informar-lhes sobre o que é um transtorno de hiperatividade. A maioria não sabe. Mas devido à popularização do termo, muitos consideram conhecer o problema. Também é necessário mostrar-lhes as diversas situações em que ocorre a má educação de seus filhos, para ajudá-los a refletir sobre o assunto.

 

EF – Por fim, quais as considerações finais que a senhora gostaria de fazer sobre o tema?

Ana Cássia – A maioria das crianças agitadas não é hiperativa. É necessário atentar para que elas não sejam taxadas como tal e negligenciadas em suas reais necessidades. Assim como aquelas que são hiperativas não serem também negligenciadas. Diante de qualquer dúvida, o melhor é pedir a opinião de um especialista sobre o assunto. Nada de ficar dando diagnósticos atrapalhados. Eles só cegam e impedem que as crianças recebam a ajuda de que realmente necessitam.

 

 

Revista Guia Prático do Professor – Ensino Fundamental Ed. 99