Vamos conhecer o antigo Egito?

Esse convite é irrecusável, principalmente porque partiu dos alunos da Unidade Educacional da E.M.E.F. José Martiniano de Alencar

Fotos: The British Museum | Adaptação web Caroline Svitras

 

Como parte de um projeto bastante amplo, que trata da questão da africanidade na escola, o Egito foi eleito pelas crianças por uma série de motivos: a instigante história, os mistérios da mumificação, o fascínio que os faraós exercem sobre o imaginário popular e até porque muitas delas não sabiam que ele faz parte do continente africano.

 

De início, todo esse trabalho, que foi coordenado pela professora Luciana Leme Borin, fundamentou-se na leitura de livros disponíveis na biblioteca escolar. Os alunos pesquisaram a localização do continente africano, os países que o compõe, suas características e especificidades, até chegarem ao Egito.

 

 

Em seguida, focaram grande parte da observação na antiga história desse país, nas características do seu povo, em sua localização dentro do continente africano, nas crenças e nas questões químicas da mumificação. Diante de tanto entusiasmo, de forma interdisciplinar, cada professor passou a trabalhar o tema em sala de aula, de acordo com uma disciplina específica:
Língua Portuguesa e História: a criançada se envolveu com relatórios, gramática e atividades ortográficas realizadas a partir de textos informativos sobre o povo do antigo Egito.

Ciência: a partir da informação sobre os processos químicos do processo de mumificação, os alunos realizaram experiências e uma série de comparações entre mumificação, desidratação e decomposição provocada por organismos vivos.

Artes: as crianças executaram um painel, inspiradas na arte do antigo Egito, desenhando em giz de cera.
Geografia e Informática: os alunos visualizaram a localização do Egito e, em paralelo, diversas imagens do país, inclusive as mais atuais.

 

As múmias do Antigo Egito

 

Exploração e curiosidade científica

Dentro do projeto Africanidades, em paralelo com o aprendizado teórico que abrangia muito mais que o território egípcio, a criançada começou a empreender uma busca independente e de interesse para a aprendizagem própria, na qual envolveram até os pais, que também tiveram que se dedicar em pesquisar sobre o antigo Egito, para sanar as dúvidas dos filhos.

 

O resultado adquiriu um excelente exemplo: a cada dia, as crianças traziam mais informações para a sala de aula, onde as compartilhavam com os colegas. Entre outras coisas, elas descobriram que, além da vaidade ou do ponto de vista místico, que dizia que os deuses Horus e Rá protegiam de infecções os olhos daqueles que usavam pintura, um estudo divulgado por pesquisadores franceses detalha que a maquiagem também servia de escudo para os olhos de nobres e trabalhadores.

 

 

Conscientes que, na época, não havia antibióticos, mas como as bactérias se faziam presentes nas águas paradas do Rio Nilo, elas deixam claro que, os egípcios passaram a produzir e usar cosméticos para prevenir ou tratar infecções oculares.

 

Entre outros aspectos, as crianças também aprenderam que as perucas feitas com cabelo natural surgiram no Egito, onde era costume raspar todos os pelos do corpo, por causa dos piolhos. Dessa forma, além de adornar as cabeças, elas ainda serviam como proteção solar, tanto para os faraós e classes mais abastadas, quanto para o povo que, por sua vez, fazia uso de perucas produzidas com papiro.

 

Nesse contexto repleto de descobertas, em pouco tempo, a teoria começou a ser posta em prática. Com a ajuda dos professores, os alunos criaram um barco funerário egípcio, repleto de amuletos de proteção para a vida pós-morte. Eles já sabiam que no antigo Egito a múmia era transportada numa embarcação para a margem ocidental do Nilo, local onde se encontravam os túmulos, pois o ocidente estava associado à morte no pensamento egípcio, em virtude de ser o lado onde o Sol se põe.

 

 

Para compor alguns amuletos que decoraram o barco, as crianças usaram a simbologia adinkra, que apresenta provérbios e aforismos, por meio de uma linguagem de ideogramas de padrões repetidos, que provavelmente se originou no antigo Egito, apesar de estar presente em muitos países africanos atuais.

 

Depois, tal como o povo da nação Ashanti, elas estamparam com os adinkras um tecido de algodão, que se transformou na cortina da biblioteca. Empolgadas, ainda confeccionaram múmias e sarcófagos lúdicos; elaboraram, com a ajuda dos professores e pais, vestimentas típicas da época; fizeram a releitura das obras de Abdias do Nascimento e dobraduras de animais africanos (leão, girafa e elefante). Também deram vida a bonecas negras dos mais variados estilos, a partir de tecidos reciclados, garrafas PET e técnica de papel machê.

 

 

Como elas mergulharam no antigo universo egípcio sem medo, aprenderam e assimilaram muitas coisas, deram asas à imaginação, aventuraram-se em busca do saber, experimentaram e, junto aos professores, erraram e acertaram, porém foram recompensadas, mas não só pelo conhecimento adquirido.

 

Quase no final de 2011, graças a todo o aprendizado e à experiência do peixe-múmia, os alunos – e, em consequência, a escola – foram premiados no evento científico da revista Ciência Hoje, após exposição oral e vestimenta contextualizada, na presença dos professores e pais que se emocionaram com o agradecimento em palco aberto feito pelas crianças.Partindo do trabalho com a identidade, hegemonia e relações étnico-raciais, o projeto busca, por meio de práticas de leitura, reler e (re) significar o mundo, o homem e suas relações, conforme a perspectiva dos direitos humanos consubstanciados nas relações étnico-raciais:

 

 

“Na escola observamos muitos casos de racismo, de preconceitos e discriminação, onde muitas vezes o profissional não consegue minimizar o problema por falta de experiência, de qualificação e, até mesmo, por incapacidade em lidar com a diversidade, pois ele fica perdido, sem saber como reagir em momentos em que exigem a sua intervenção para que o problema não se torne uma agressão mais séria. (MUNANGA, Kabenge. Superando o racismo na escola. 2. ed. Brasília: MEC-SECAD, 2005).

 

Na escola, sua base foi a biblioteca, onde está sendo organizado um canto de leitura para a diversidade africana e prática de “roda de histórias” entre professor e alunos. Portanto, no relato dos livros de cultura negra, a criançada é estimulada a buscar uma reflexão social, capaz de levá-la a explorar os símbolos, imagens e diferentes linguagens, das narrativas infantis afros que difundem um “imaginário” construído de experiências humanas e um sistema de valores considerados convenientes para a diversidade desconhecida do povo “do lado de lá” – do continente africano.

 

 

Como ponto de referência, os livros também são usados com o intuito de propiciar ao aluno negro e não negro, medidas efetivas para a reversão das práticas escolares impregnadas de racismo, de acordo com uma metodologia positiva de tratamento pedagógico voltada para a questão da diversidade racial.

 

Por conseguinte, entre os objetivos específicos desse trabalho, destacam-se a:

  • Construção de espaços de discussões e aprofundamento teórico sobre os livros afro-infantis existentes na escola, visando o estudo da cultura afro-brasileira;
  • Criação de dispositivos de ação para uma prática escolar inclusiva que viabilize a aplicação da lei 10.639/03 existente, mas não aplicada, por meio da reflexão da cultura afrodescendente como valor histórico cultural;
  • Busca por recursos disponíveis na Informática Educacional, como instrumento de pesquisa e de atividades paralelas exercidas em sala de aula, como complemento à dinâmica do prazer em aprender por meio de vídeos, jogos, leitura e visualização de imagem do conteúdo proposto.

 

Fotos: Guia Prático do Professor – Ensino Fundamental Ed. 95