Entrevista com Rubem Alves

Em homenagem à memória de Rubem Alves, acompanhe a entrevista na qual ele se posicionou em relação a Educação atual

Por Morgana Gomes | Foto: Reprodução/fliporto.net | Adaptação web Caroline Svitras

 

O escritor, psicanalista, educador, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp/SP) e crítico do sistema de ensino brasileiro Rubem Alves, além de concordar com as crianças que dizem que a escola é chata, sempre pregou que a instrução impositiva, determinada pela grade curricular, não despertava o interesse dos alunos, porque não poderia ser vivenciada no dia a dia. Entre esses e outros conceitos, ele também afirmava que, se o professor não aprender a ousar, o modelo de Educação existente iria persistir com todas as suas falhas por tempo indeterminado. Embora tenha falecido em 2014, seus posicionamentos em relação à Educação permanecerão como uma grande lição para os docentes que se dedicam à reflexão relacionada aos processos de ensino-aprendizagem.

 

Guia Prático para o Professor do Ensino Fundamental I – Por que o senhor concorda com as crianças que dizem que a escola é chata?

Rubem Alves – Porque o ensino é impositivo e determinado pela grade curricular. Dessa forma, além de não ser vivenciado no dia a dia, ele também não desperta o interesse dos alunos que, por sua vez, sempre fazem questionamentos interessantes acerca do mundo. Entre outros exemplos, eles querem saber quem inventou as palavras, por que canteiro não se chama planteiro já que recebe plantas e por que, em vez de cair em pingos, a chuva não desaba de uma vez só. Mas essas e outras perguntas incríveis não são respondidas pelos programas oficiais. Embora a Educação devesse ser um instrumento de entendimento da vida, a escola tradicional não leva em consideração o desejo de aprender das crianças, pois os adultos continuam acreditando que elas não sabem nada e, assim, decidem o que devem aprender. No entanto, como tudo aquilo que não tem sentido é facilmente esquecido, ocorre o desperdício de esforços e a assimilação do aprendizado se faz inexistente. Em consequência, o modelo de Educação existente persiste com todas as suas falhas.

 

EF – De acordo com esse panorama, qual o papel dos professores?

Alves – É normal eles dizerem que é muito difícil ensinar as crianças, devido à necessidade de descer ao nível delas. Discordo totalmente disso, porque difícil mesmo é alcançar a sensibilidade e saciar a curiosidade infantil. Apesar da maioria dos professores não ousar e ainda se justificar dizendo que segue o programa que dita o que deve ou não ser ensinado, eu creio que a base da Educação não são as normas vindas de cima, mas as estratégias criadas pelo próprio educador que ama a profissão e seus alunos.

 

EF – De que forma é possível conscientizar os docentes sobre esse círculo vicioso?

Alves – De início, abolindo a inércia. Os educadores que sempre fazem as mesmas coisas não têm muito trabalho, pois eles apenas se repetem. Na escola tradicional, por exemplo, o professor é aquele que sabe a matéria e dá sua aula acreditando nisso. No entanto, se a escola fosse mais solta, ele iria se comprometer mais, já que não seria possível somente preparar a aula, em virtude do próprio aluno que, por sua vez, poderia lhe apresentar uma questão à parte do que foi programado. Considerando ainda que na Internet tudo é encontrado, o professor também deveria ensinar o aluno a pensar para, então, descobrir onde encontrar as respostas necessárias as suas perguntas. Contudo, como essa é uma nova função para o educador, antes de assumi-la, primeiro, ele deveria construir o seu próprio conhecimento, para, depois, tentar orientar as crianças.

 

Foto: Fernando Pereira

 

EF – Em relação ao aprendizado da escrita, que também se mostra bem ineficiente, o que o senhor tem a dizer?

Alves – Eu vou recorrer a Bruno Bettelheim [1903-1990], psicólogo judeu norte-americano, nascido na Áustria que, pouco antes de morrer, declarou em uma entrevista que em sua época de escola “os professores queriam lhe ensinar apenas aquilo que não queria saber e do jeito que somente eles desejavam”. Dessa forma, verificamos que o desinteresse é uma reação natural à situação escolar. Partindo desse exemplo, é comum o professor reclamar que a criança não sabe escrever, mas ele também não fornece a ela razões concretas para que aprenda. Entre outras opções, ele poderia desenvolver um projeto para alcançar tal objetivo e, em paralelo, colocar-se no lugar da criança, momento em que perguntaria a si mesmo: se eu tivesse a idade dela, estaria interessado no que tenho a ensinar?

 

EF – Então, o senhor crê que a escola deveria ser um espaço livre de experimentações de aprendizado?

Alves – Exatamente. Apesar de vivermos em uma sociedade voltada para a especialização, a escola deveria provocar e oferecer aos alunos as ferramentas imprescindíveis à compreensão do mundo.

 

EF – Mas o que são essas ferramentas?

Alves – A resposta é simples, pois abrange todos os objetos usados para se fazer alguma coisa. Porém, o educador ainda deve questionar dois aspectos: o ensino é ferramenta para quê? E, o aluno está interessado em fazer isso? De um modo prático, não há por que dar agulha e linha para quem não quer costurar, nem tintas e telas para quem não quer pintar. Ferramentas só têm sentido se há demanda. O mesmo acontece com o aprendizado. Se ele não for ferramenta, dificilmente será assimilado.

 

EF – Para finalizar, quais as considerações que o senhor gostaria de deixar para os nossos leitores?

Alves – Para exemplificar o que já disse, vou citar o colombiano Gabriel García Márquez [1927-2014], um dos maiores escritores de todos os tempos. Ele costumava afirmar que, em um ambiente repleto de coisas espalhadas, a criança mexe em determinados objetos que lhe chamam a atenção, mas só escolhe os mais adequados ao seu uso. Observada essa atitude, o educador poderia direcionar o aprendizado, para trabalhar as múltiplas inteligências de seus alunos. Mas como, infelizmente, desde a Educação Infantil, o germe do vestibular se instala nas escolas, as ferramentas educacionais se perdem em virtude da exigência do saber decorado. Por isso, insisto em dizer que, em vez de medir a memorização, seria muito mais eficiente avaliar o modo de pensar da criança, pois dos 100% dos saberes que a escola impõe somente 10% serão realmente absorvidos pelos alunos.

 

Adaptado do texto “Ao mestre, com carinho”

Revista Guia Prático do Professor – Ensino Fundamental Ed. 123