O ensino religioso nas escolas

Independente do tipo de crença, ele se faz fundamental para a formação ética e moral da criança, desde que não se transforme em uma aula de religião ou queira impor uma doutrinação

Foto: Arquivo Pessoal | Adaptação web Caroline Svitras

A sociedade moderna vive uma crise de valores sem precedentes. Embora essa constatação não tenha nada de original, em paralelo, as famílias também têm perdido o controle e o limite dos filhos, o que torna essa situação mais evidente na escola. Mas para inserir o ensino religioso nesse contexto é preciso se ater às orientações da legislação, cujo princípio básico dita que a Educação, dever da família e do Estado, deve ser inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade, cuja finalidade é o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Para entender como tornar o processo possível, confira a entrevista do professor Luciano Narciso Mendes, que realiza um profícuo trabalho social, com base no ensino religioso, com crianças da periferia.

 

Guia Prático para Professores de Ensino Fundamental I – Qual o objetivo do ensino religioso na EF?
Luciano Narciso Mendes – O ensino religioso na família tem um papel importante na formação do educando, enquanto regra de fé e prática da própria “religião” ensinada pelos pais. Porém, a função do ensino religioso na escola é especificamente voltada para a perspectiva da formação plena do cidadão, inserido numa sociedade cultural e regimentada por sua diversa religiosidade, na qual todas as crenças e expressões religiosas devem ser respeitadas.

 

EF – Já que os ensinamentos da Bíblia são praticamente universais, é possível conciliar ensino religioso com a religiosidade variada das crianças?
Mendes – Sim, porque, na verdade, não impomos “religião”, mas destacamos ensinamentos para a vida. É nessa perspectiva da formação plena do cidadão e no contexto de uma sociedade cultural e religiosamente diversa, na qual todas as crenças e expressões religiosas devem ser respeitadas, que esse tipo de ensino é regido pela legislação que diz: “… Assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedada quaisquer forma de proselitismo.” Por isso, não impomos, mas aplicamos os princípios de respeito, solidariedade, amor, paz, entre outros, à vida prática.
EF – Como “traduzir” as metáforas da Bíblia para a criançada compreender os ensinamentos que se encontram nelas?
Mendes – A proposta aqui não é traduzir os ensinos da Bíblia, mas fazer com que a criança entenda o contexto do ensino aplicado, por meio da dedução lógica e interpretação das informações passadas, sem que haja necessidade de ser explicado minimamente pelo professor. Segundo PIMENTA (1997), a didática, enquanto área da pedagogia, tem no ensino seu objeto de investigação. Logo, ela pode ser definida como “o estudo dos processos de aprender e ensinar relativos a um conteúdo específico” (p.54). Assim, o professor é a figura fundamental nesse entendimento da didática: “Cabe a ele compreender o funcionamento do real e articular sua visão crítica dessa realidade com suas pretensões educativas”, (op.cit.: 64). Ou seja, uma vez que o método das histórias é aplicado por meio da didática, o educando compreende o ensino bíblico e tira suas próprias conclusões. Em Davi e o Gigante Golias, por exemplo, após a seção de contação de história é unânime as crianças afirmarem que “o menino foi corajoso”, para, depois, atribuírem a ele vários adjetivos: confiança, determinação, valente, destemido, vencedor etc.

 

EF – Como as crianças assimilam o ensino religioso na prática? Há uma visível mudança de comportamento entre elas?
Mendes – No início, elas têm muita dificuldade em atender de prontidão alguns conceitos práticos de bem viver uns com os outros, em dizer obrigado, por favor, com licença, por exemplo. Após um trabalho contínuo, no qual o ensino religioso é usado como meio de reflexão, as crianças começam a criar vínculos com os professores e viabilizam diversas mudanças de comportamento. Conforme minha experiência, uns dos maiores conflitos infantis é a agressividade. Diante dessa condição, o professor deve ter uma postura firme, para agir e solucionar passo a passo as divergências apresentadas pelas crianças. Até porque muitas das desavenças enfrentadas por elas advêm de diversidades culturais, geradas pelas diferenças estruturais na convivência familiar.

 

EF – Então, tais ensinamentos também visam provocar a reflexão infantil sobre o bem e o mal?
Mendes – Sim! Até mesmo nas primeiras histórias contadas às crianças na Idade Média, entre as quais os contos de fadas, já se falavam de “conflitos infantis” e “triunfo do bem sobre o mal”. No entanto, o “bem e o mal” é uma reflexão que perpassa pela humanidade como “senso comum”, independe de questão religiosa. Por isso, os ensinos bíblicos enfatizam, por meio da reflexão, mudança interna de comportamento, ao mesmo tempo em que incentivam o vínculo da paz, do amor, da amizade, da paciência etc.

 

EF – O que os pais acham desse tipo de ensino?
Mendes – Os pais apoiam e contam, com muita satisfação, que depois de certo período, percebem diversas mudanças na vida cotidiana da criança. Muitos afirmam: “Meus filhos estão mais calmos”; “Meu filho deixou de brigar com o irmão em casa”; “Eles xingam menos”; “Eles participam mais das conversas em família.”

 

EF – Como é complementado esse trabalho?
Mendes – De início, com a contação de histórias, a introdução de elementos lúdicos, como fantoches, e a alfabetização, que visam à formação de cidadãos autônomos e solidários por meio de um projeto pedagógico que, apesar da atual crise ética advinda da globalização tecnológica, conta com a adesão de pessoas que acreditam e lutam para o bem-estar das crianças. Depois, com trabalhos voltados à aprendizagem e à convivência infantil, tais como esportes, cultura, arte etc. Por isso, é fundamental que a escola retome seu papel principal de ensino-aprendizagem. Ainda que não seja o único lugar em que essa aprendizagem se realiza, a escola pode auxiliar a criança na luta em busca de uma vida comum, livre e feliz, fundamentada na amizade, na temperança e na justiça.

 

O professor Luciano Narciso Mendes se coloca à disposição para esclarecer qualquer dúvida. Contate-o pelo email lucianonarcisomendes@yahoo.com.br ou pelo site www.ministerioinfantil.com.br

Revista Guia Prático do Professor – Ensino Fundamental Ed. 95