Pequenos guerreiros em ação

Tanto as escolas quanto as academias sempre oferecem modalidades esportivas que estão na moda para entreter as crianças

Da Redação | Foto: Arquivo pessoal | Adaptação web Caroline Svitras

Além do futebol, o MMA vem se consagrando entre os adeptos das modalidades esportivas. Isso é bem fácil de constatar. Basta observar que tanto quanto o jogador de futebol Neymar, o lutador Anderson Silva, graças ao próprio carisma e desempenho, também chama muita atenção, inclusive das crianças que, por sua vez, inspiradas por ele, passaram a se interessar pelas artes marciais, já sonhando com uma futura atuação no octógono.

 

Mas enquanto alguns pais incentivam a prática específica e bem orientada de algumas modalidades de lutas, outros acreditam que a popularização do MMA é preocupante devido ao estímulo à violência e ao crescente número de academias que oferecem cursos infantis. Por outro lado, pesquisas também já comprovaram que as artes marciais são excelentes para ensinar o controle mental, o respeito ao corpo e ao próximo. Além disso, o judô e o karatê já fazem parte do universo infantil há tempos e são modalidades aceitas socialmente como adequadas para crianças, pois oferecem disciplina, autocontrole e equilíbrio. Por isso, em meio à tanta polêmica, entrevistamos André Luís Amaral da Costa, professor de Educação Física, de Boxe e Muay Thai, para sanar algumas dúvidas a respeito do tema.

 

Guia Prático para o Professor do Ensino Fundamental I – Quais as principais modalidades de luta que se adéquam ao universo infantil?

André Luís Amaral da Costa – Além do judô, karatê e taekwondo, temos a capoeira que, embora ainda sofra certo preconceito social, é uma das lutas que mais ajudam as crianças a desenvolver a consciência corporal. Além desses exemplos, há outras modalidades, como o boxe e o jiu-jitsu, que também são ótimas para ensinar, principalmente, disciplina aos pequenos que se interessam por lutas.

 

EF – Quais os cuidados que pais e professores devem ter quando a criança mostra interesse pelas artes marciais ou até pelo MMA e quer praticar alguma modalidade de luta?

André – O primeiro cuidado é verificar o porquê seu filho quer praticar uma arte marcial. Já o segundo passo é buscar um local apropriado com professores e mestres qualificados e certificados. O muay thai, por exemplo, modalidade de contato total e intenso, ajuda a criança a descarregar sua energia e criar disciplina, desde que os instrutores ensinem que, além de arte marcial, ela é uma filosofia de vida para quem a pratica e ainda expliquem que, na Tailândia, país onde a luta se originou, para muitos, ela é considerada até como religião.

 

Detalhe de aula de judô para crianças | Foto: Reprodução/baltimoremartialarts.com

 

EF – Na escola, durante o período do curso de férias, o professor de Educação Física, caso seja um praticante experiente ou tenha feito uma extensão específica, após a devida autorização dos pais, pode introduzir a prática das artes marciais entre os alunos?

André – Claro que sim! E se ele for qualificado para esse tipo de atividade só ira agregar novos conhecimentos corporais e mentais às crianças. Em países mais desenvolvidos, como os Emirados Árabes Unidos, em sua capital Abu Dhabi, o jiu-jitsu brasileiro é matéria curricular obrigatória para alunos do segundo ano do Ensino Fundamental. Infelizmente, aqui no Brasil, ainda falta uma melhor divulgação das artes marciais, para desmistificar certos tabus existentes.

 

EF – Como a maioria dos esportes de confronto corporal oferece riscos de lesões, as técnicas das artes marciais têm apenas um cará ter lúdico para poupar as crianças ou, aos poucos, elas também vão instigando o espírito de competição infantil?

André – De certa forma, todo e qualquer esporte oferece riscos de lesões aos seus praticantes, mas, no caso das lutas, a sociedade já olha a prática de forma diferente. Em um simples jogo de peteca, se a criança se machuca, a lesão adquirida é apenas considerada como uma fatalidade. Mas se essa mesma criança está praticando uma arte marcial, todos dirão que foi por causa da luta. Poucos admitem que lesões podem ocorrer durante a prática de qualquer esporte. Já em relação à competitividade, de 100% das modalidades esportivas, 99% geram um clima de competição, mesmo quando a modalidade é apresentada de forma lúdica para seus praticantes.

 

EF – Como em qualquer grupo de crianças sempre há diferenças de desempenho, como é adequada a carga de treinamento?

André – Na verdade, esse é um ponto muito importante, que exige atenção constante do professor, pois a técnica passada para os alunos é a mesma para todos, porém cada um deles responde de uma forma diferente, até mesmo por sua individualidade biológica. Em decorrência dessa situação, o professor tem que buscar, de diversas formas, um jeito de inserir todas as crianças no mesmo âmbito e estimular não só as que têm dificuldades, mas também as que têm facilidade, para que ambas não percam a motivação, diante dos ritmos diferentes de treino apresentado a elas.

 

Meninos norte-americanos em aula de MMA de um Programa Júnior do condado de Mercerville, em Nova Jersey | Foto: Reprodução/masterblacksma.com

EF – Ao praticar qualquer arte marcial, a própria criança não cria uma autopressão psicológica por resultados?

André – Essa pressão só existe quando vem dos pais. Muitas vezes, o aluno não tem vontade de praticar uma modalidade de arte marcial, mas eles o obrigam. Em consequência, a criança acaba por criar por si só uma grande pressão psicológica, não só por resultados, mas somente para não decepcioná-los.

 

EF – Diante da falta de discernimento ou maturidade emocional das crianças, quais as precauções que devem ser tomadas pelo professor de Educação Física ou pelo instrutor de artes marciais para impedir comportamentos distorcidos?

André – O primeiro passo é ensinar o aluno a respeitar o próprio corpo e, em seguida, fazer com que ele consiga enxergar o outro como igual. A partir do momento em que é criada essa consciência, também é possível evitar muitos comportamentos distorcidos.

 

EF – Para finalizar, quais as considerações que o senhor ainda gostaria de fazer sobre o tema?

André – Fico muito feliz em falar sobre um assunto tão vasto e polêmico, tendo em vista que a sociedade ainda enxerga as artes marciais como esportes violentos. Mas, na verdade, a agressividade está na pessoa e não na arte marcial que ela pratica. Por isso, gostaria de sugerir para quem ainda tem esse tipo de pensamento a busca por mais informações, sobre o que é realmente uma arte marcial e qual a sua filosofia para, aí sim, ter embasamento para criticar ou elogiar. No mais, agradeço a todos a oportunidade de poder me expressar como professor de Educação Física, de Boxe e Muay Thai e também como praticante.

 

Sobre o entrevistado

André Luís Amaral da Costa é praticante de artes marciais há mais de 17 anos, professor de Educação Física, de Muay Thai Faixa Azul Ponta Preta e de Boxe. Além disso, ele também dá treinamento funcional para luta e treinos de condicionamento físico.

 

Revista Guia Prático do Professor – Ensino Fundamental I Ed. 119