Escola sem partido: política para quem?

Se o movimento divide opiniões, você é contra ou a favor dessa proposta?

Da Redação | Foto: ilmondodiart.com

A proposta da Escola sem Partido é de que seja afixado na parede das salas de aula de todas as escolas do país um cartaz, no qual estarão descritos os deveres do professor, com o objetivo de informar aos alunos sobre o direito que eles têm de não serem doutrinados. Na contramão dessa ideia, especialistas em Educação criticam o programa afirmando que nada na sociedade é isento de ideologia e, em consequência, o movimento é uma proposta carregada de conservadorismo, autoritarismo e fundamentalismo cristão. Diante desse impasse, entrevistamos o professor Marco Moretti, para lhe ajudar a se posicionar.

 

Guia Prático para o Professor do Ensino Fundamental I – O senhor poderia nos explicar o que é a Escola Sem Partido?

Marco Moretti – Eu não li a proposta da Escola Sem Partido, nem conheço os seus detalhes. Até onde sei, trata-se de um projeto de lei que está tramitando no Legislativo com o intuito de coibir a discussão de questões políticas em sala de aula. O intento da proposta me parece que é evitar a doutrinação ideológica dos alunos por parte dos professores.

 

EF – Se na sociedade atual nada é isento de ideologia, a Escola Sem Partido não vai apenas de encontro com um Estado conversador e autoritário?

Moretti – Sem dúvida, não há como impedir ou evitar que as discussões políticas tenham lugar nas salas de aula, independente da ideologia de cada um. Seria um retrocesso muito grande evitar que esse tipo de debate, que é natural e até desejável em uma democracia, ocorresse nas escolas. Somente por intermédio da exposição de ideias e da troca de pontos de vista é que crianças e jovens serão capazes de formar o seu posicionamento frente aos problemas sociais.

 

EF – Como toda a História da humanidade gira em torno da política e da economia, como será possível ao professor discutir certos eventos históricos, a organização e a composição da sociedade e até mesmo a cidadania com crianças do Ensino Fundamental?

Moretti – Simplesmente não é possível, sobretudo no ensino de História e Geografia, disciplinas que exigem um debate aprofundado a respeito dessas questões. Não se pode ensinar os fatos históricos ou expor os problemas atuais de Geopolítica sem entrar na seara das discussões políticas. O que não se pode, contudo, e eu gostaria muito de frisar esse aspecto, é que essa discussão ocorra sob um viés tendencioso e distorcido dos fatos e das ideias. O aluno, sobretudo do Ensino Fundamental, desconhece as noções elementares a respeito das doutrinas políticas e econômicas, dos sistemas políticos, da composição dos Estados etc. É um desrespeito muito grande para com os alunos ensinar essas noções com uma carga de preconceito, valorizando apenas os aspectos com os quais o docente concorda e omitindo ou criticando aqueles dos quais discorda. Isso é doutrinação, não discussão política. Para que essa última exista, é preciso isenção por parte do docente, para apresentar, com o máximo de neutralidade e clareza, todos os pontos positivos e negativos de cada linha de pensamento e deixar que o discente escolha por si mesmo qual deles é o mais apropriado, segundo o seu ponto de vista particular. Influenciar o aluno em sala de aula é impedir a livre manifestação do pensamento. Repito, é doutrinação, não ensino, nem debate de ideias.

 

Marco Moretti é jornalista e escritor é mestre em Comunicação Social pela Universidade São Paulo (USP), além de coordenador e professor do curso de Jornalismo na Universidade Paulista (Unip). Atualmente, publica com regularidade contos e resenhas críticas de cinema, literatura e HQs em seu próprio blog, Diário do Moretti (www.diariodomoretti.com.br).  | Foto: Arquivo pessoal

 

EF – Sabemos que a formação dos professores brasileiros é deficiente, mas se os integrantes da Escola Sem Partido até já elaboraram um anteprojeto de lei que prevê a fixação de cartazes com os deveres dos docentes nas salas de aula, parte da obrigação dos educadores no que se refere ao desenvolvimento do pensamento critico e do bom senso dos alunos não se perde?

Moretti – Claro, os alunos ficariam privados de compreender os fatos da atualidade e do passado e formariam opiniões guiadas pelo senso comum e não pelos argumentos. Teríamos, então, uma sociedade de robôs e não de seres pensantes, capazes de expressar as suas opiniões, livres de influências ideológicas e escorados no conhecimento legítimo. O perigo de uma sociedade assim é que ela se deixa facilmente levar por qualquer discurso demagógico.

 

EF – Na Escola Sem Partido o ato educativo não se tornará somente uma mera reprodução e expressão do poder vigente que, por sua vez, formará somente seres incapazes de contestar, entre outros aspectos, as injustiças sociais?

Moretti – Esse é o grande risco, mas não o único, das distorções que a Escola Sem Partido pode ocasionar. A alienação política, a meu ver, é o maior deles, mas a anestesia do espírito crítico também irá contaminar outros aspectos da formação dos alunos. Se a proposta for mesmo o que dizem ser, trata-se de uma aberração que deve ser rejeitada com veemência, para o bem da sociedade democrática. Porém, é importante considerar também que nem sempre o debate político intenso é algo necessariamente positivo. Quando ele ocorre sem o lastro de um conhecimento aprofundado das ideias discutidas, a tendência é a radicalização, a formação de lados opostos, esquemáticos e superficiais no campo das ideias, sem que haja espaço para a tolerância e a discussão liberal. Um bom exemplo de como a discussão política nem sempre é algo desejável é o que ocorreu na República de Weimar, na Alemanha dos anos 1920 e início dos anos 1930. Lá, ocorriam debates constantes, inflamados e frequentes, a todo o momento e em todo lugar, nos cafés, cervejarias, salões, congressos, entre outros, envolvendo as diversas correntes políticas. No final, vimos no que isso resultou. O pesadelo nazista não foi o único exemplo disso. A mesma coisa se deu na Revolução Francesa, no século 18, e, como se sabe, o processo desembocou em uma fase de perseguição violenta — o Terror — seguida de uma tirania — a era napoleônica — que acabou em um longo período conservador — a Restauração. É preciso, portanto, tomar cuidado com a impressão de que qualquer diálogo político é salutar. Sem a formação necessária, ele pode resvalar para posturas de intransigência que beiram o fanatismo. E, como se sabe, com fundamentalismos não existe possibilidade de diálogo, pois o fanático não conversa, não troca ideias, ele só quer pregar e impor as suas próprias concepções. Em sua cabeça, ele está certo, tem a razão e os que pensam diferente estão errados e devem ser eliminados.

 

EF – Caso seja implantada, a Escola Sem Partido não deixará também de desconstruir convicções morais preconceituosas, homofóbicas e racistas?

Moretti – Pelo contrário, penso que, se ela for implantada da forma como dizem ser, ela impedirá a livre manifestação de ideias contrárias, a única maneira de praticarmos a tolerância e evitar atitudes e pensamentos radicais e totalizantes. É o livre debate que propiciará a tolerância, não o contrário. Os preconceitos e o racismo são combatidos com o antídoto do bom diálogo, bem informado, bem argumentado. Sem isso, teremos o caminho pavimentado para o autoritarismo ou, pior, para um totalitarismo.

 

EF – Afinal, a quem interessa de fato a Escola Sem Partido e qual seu objetivo real conforme o contexto sociopolítico e econômico que vivenciamos na atualidade?

Moretti – Pode ser que a intenção da Escola Sem Partido seja evitar os dogmatismos políticos que hoje dominam a sociedade, sobretudo entre os jovens, muito mais inclinados a demonstrar as suas convicções políticas sem a tolerância para ouvir e aceitar, em alguns casos, as ideias contrárias às suas. Naturalmente, esse tipo de atitude tem de ser combatida não só em sala de aula, mas em qualquer lugar, seja no ambiente de trabalho, nas redes sociais, no convívio social, pois ela não contribui em nada para a melhora da cidadania e da vida pública. Mas não é impondo restrições ao diálogo que se conseguirá eliminar essa intolerância dogmática. É exatamente o contrário. Só se combate uma ideia perniciosa e perigosa com outra ideia, mais arejada, mais saudável. E, para isso, é preciso haver a livre manifestação do pensamento.

 

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