Agressividade entre pai e filho

Quais os malefícios que os jogos violentos de videogame deixam na vida infantil?

Por Sobre Erika de Souza Bueno* | Fotos: Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

Por que não se pode tolerar que uma criança se envolva em um ambiente de luta, combates e ódio? O que pode acontecer a um menino que se empolga com a adrenalina ao se deliciar em cenas de violência explícita trazidas pelos jogos?

 

Talvez possamos encontrar uma das muitas respostas possíveis em Gigantes de Aço (Real Steel). O filme norte-americano, lançado em outubro de 2011, embora seja uma ficção, trata de uma relação bem conturbada entre pai e filho que, ao longo da trama, se encontram em um único objetivo: o Gigante de Aço. E assim, tornam-se amigos!

 

Na película, Dakota Goyo dá vida a Max, um menino completamente envolvido pelos jogos de videogame. Ele é o filho único, mas também rejeitado, de Charlie, personagem vivido por Hugh Jackman, responsável pela revolta que pode acometer qualquer família que almeja o melhor para seus filhos.

 

O menino protagoniza cenas que fazem o coração saltar ainda mais forte, ao falar abertamente com seu pai, como se estivesse em uma condição igual à dele. Mas, por uma série de motivos, ele não está. Charlie, por exemplo, já viveu muito mais tempo que Max. Além disso, está cheio de marcas de uma vida de insucessos, que o deixam amargo e com pouquíssimos meios para contribuir de algum modo com o filho.

 

Na cena em que desce do carro de seus tios, rumo ao encontro do pai, o menino já nos dá mostras de sua personalidade: ele interroga Charlie sobre o valor pelo qual fora vendido. O pai do garoto não viu nenhum problema em precificar a guarda dele, deixando-a aos tios. Ele também não identificou nenhum “porém” em utilizar o dinheiro para adquirir mais um robô lutador.

 

De modo semelhante, também não levou em consideração o fato de que Max tinha acabado de perder sua mãe. Tampouco fez questão de dar a resposta que o filho queria, ou seja, o valor com que fora vendido. No decorrer do filme, incontáveis vezes, somos surpreendidos pelo lado inconsequente de Charlie em relação ao menino.

 

Isso revolta. Porém, mais uma vez, o cinema nos dá recursos de abordagens em sala de aula, principalmente, quando estamos realizando algum trabalho com a família de nossos alunos. No filme, o final é feliz, se é que podemos chamar assim um término que tem uma criança envolvida em cenas de tamanha agressividade. Contudo, na vida real, final semelhante pode ser tenebroso, brutal, trágico e cruel.

 

O fato de os combates se darem entre robôs não colabora, de modo algum, para a diminuição da carga de violência. Enquanto as “latas” se amassam durante os numerosos combates que aparecem no filme, o caráter cruel e impiedoso das pessoas que os controlam aparece claramente.

 

Reencontro sem bases sólidas

Max, um menino de apenas 11 anos, não apenas presencia tudo isso, mas ele é participante ativo e responsável por levar o filme a um desfecho “feliz”: a comemoração, o olhar de carinho e cumplicidade entre um dos robôs e o menino, o abraço entre pai e filho…

 

Bom, nada disso parece compensar a angústia de termos visto uma criança desamparada pelo pai, acompanhando-o a tantos lugares inadequados à idade e aos direitos que deveriam ser assegurados a ela. Claro que esse desamparo foi aparentemente vencido. Mas é só isso, tudo parece muito vago, prematuro e sem bases sólidas. Porém, como todo bom filme, Gigantes de Aço é capaz de nos deixar revoltados, ansiosos e com o desejo intenso de fazer mais pelas crianças com as quais hoje temos contato.

 

Por isso, na escola, a película ainda nos dá uma grande oportunidade de trabalho com a família de cada aluno. Recomende-o aos adultos ou exiba-o, total ou parcialmente, em reuniões com os responsáveis para, em seguida, promover um debate sobre relacionamento entre pai e filho. Devido a trama, facilmente, os adultos vão perceber como é essencial manter uma criança sadia e bem longe da violência – seja ela fictícia ou não.

 

 

Sobre Erika de Souza Bueno

Ela é coordenadora pedagógica do Planeta Educação. Professora e consultora de Língua Portuguesa pela Universidade Metodista de São Paulo. Articulista sobre assuntos de língua portuguesa, Educação
e família.