O dilema das tabuadas

As crianças precisam saber de cor, mas também necessitam compreender as tabuadas

Da Redação | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Retomamos um velho tabu: afinal, a tabuada deve ser decorada ou compreendida? No 3º ano do Ensino Fundamental do Colégio Santa Maria, o trabalho visa, inicialmente, a compreensão da multiplicação como uma adição de parcelas iguais. Na prática, são utilizadas situações-problemas para a compreensão de que a soma “5+5+5” traz o mesmo resultado que a multiplicação “3×5”, exemplifica a professora Maria Elizabeth da Costa. Para a memorização, que é a etapa seguinte, são utilizados jogos com dados, atividades de cálculo mental, desafios e a tábua de Pitágoras.

 

Assim, as crianças percebem as regularidades e desenvolvem estratégias de memorização. Ainda segundo a professora, entre outras possibilidades, destacam-se a observação das propriedades da multiplicação, como a proporcionalidade (na tabuada do 4, os resultados aumentam de 4 em 4; na do 5, de 5 em 5) e a propriedade comutativa (como em 5 x 8 = 40 e 8 x 5 = 40). Por isso, no 3º ano, os alunos são orientados a estudar as tabuadas diariamente e, em classe, são propostas atividades em que os produtos memorizados são registrados em tempo estipulado.

 

Já no 4º ano, a multiplicação, bem como outras operações, permite aos alunos a exploração da noção de número e do sistema de numeração decimal. As crianças já registram as regularidades e a compreensão se dá de forma significativa. De acordo com essa proposta, a memorização garante ao aluno as melhores soluções para situações-problemas, entre as quais o cálculo mental. “Não podemos negar que a automatização de procedimentos [memorização] é técnica indispensável, aliada e bem-vinda às salas de aula”, pontua a professora Sildemara Aparecida Bernardo Giorgi.

 

A partir dessas concepções, Lucilei Spitaletti, professora do 4º ano do Ensino Fundamental, concedeu-nos uma entrevista:

 

Guia Prático para Professores de Ensino Fundamental I – Afinal, as crianças devem compreender ou decorar as tabuadas?

Lucilei Spitaletti – Existe uma grande diferença entre aprender e decorar as tabuadas. Não faz sentido os alunos apenas decorarem. Eles precisam aprendê-las. Aprender para quê? Aprender para usá-las! E para utilizá-las com eficiência e rapidez, é necessário tê-las memorizadas. Sendo assim, as crianças precisam ter as tabuadas decoradas, para que possam aplicá-las na resolução de outros conteúdos matemáticos. Mas, como em todo processo de aprendizagem, elas precisam ser compreendidas. Portanto, para aplicarem o conhecimento de que “2 x 3 = 6”, as crianças conheceram e construíram a compreensão que em dois conjuntos com três elementos, obtêm-se seis elementos. Já no caso de “3 x 2 = 6”, embora o resultado seja o mesmo, elas sabem que a construção se dá com três conjuntos e dois elementos, dos quais também se obtêm seis elementos.

 

EF – Quando a criança decora, com o tempo, a tendência não é esquecer o aprendizado?

Lucilei – Comprovadamente, não. Muitos educadores condenam a mecanização pura e simples da tabuada. Não há necessidade de exigir que os alunos recitem as tabuadas puramente para decorar, uma vez que elas são utilizadas para facilitar e agilizar a resolução das operações. O sabê-las de cor torna o ato significativo e prazeroso. O aprendizado não será esquecido se for utilizado. É como aprender a andar de bicicleta, se parar de exercitar por um tempo, quando for tentar novamente, poderá “titubiar”, mas é só aquecer a “memória” e fazer algum treino, que será capaz de retomar a atividade com agilidade.

 

Lucilei Spitaletti, professora do 4º ano do Ensino Fundamental, do Colégio Santa Maria | Foto: Itaci Batista

 

EF – Há alguma dica para trabalhar as tabuadas com crianças que apresentam deficiência intelectual?

Lucilei – O jogo e a música são sempre bons caminhos para a memorização. Mas depende bastante da deficiência apresentada para a escolha de um método para o ensino-aprendizagem.

 

EF – Então, em geral, o professor pode fazer uso do lúdico – música, jogos, atividades corporais etc. – com o objetivo de facilitar o aprendizado das tabuadas?

Lucilei – Algumas atividades lúdicas ajudam bastante e motivam os alunos a decorarem as tabuadas: bingo, dominó, corrida maluca, entre outras. A competição também é um grande estímulo para a memorização. O aluno não tem que decorar mecanicamente as tabuadas, apenas para recitá-las. Ele precisa memorizar, mas para utilizá-las como um instrumento facilitador na resolução de outros conteúdos matemáticos. Porém, afirmo que esta memorização deve ser precedida pela compreensão. Portanto, a ênfase do trabalho deve ser posta na construção e aplicação.

 

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Guia Prático do Professor – Ensino Fundamental Ed. 98