O exercício da docência

A carreira docente há muito deixou de ser atraente às novas gerações, pois baixos salários, precárias condições de trabalho e maiores exigências acabam afastando muitos jovens das licenciaturas

Por Fátima Trindade* | Foto: Reprodução/huffingtonpost.com | Adaptação web Caroline Svitras

Pesquisa realizada em 35 países pela Attracting, Developing and Retaining effective teachers (OCDE), entre 2002 e 2004, identificou que boa parte dos talentos atraídos para a área da docência nas décadas de 1960 e 1970, aproximava-se da aposentadoria. Essa saída de professores do mercado de trabalho já se faz sentir nas escolas brasileiras, o que deve ser visto com grande preocupação pela nossa sociedade. Porém, se esse cenário caracteriza um desafio, ao mesmo tempo, ele apresenta uma oportunidade para o estímulo e desenvolvimento de uma nova força docente que irá se beneficiar tanto das mudanças que a formação está impondo quanto das ofertas profissionais disponíveis no mercado de trabalho.

 

Hoje, enquanto muitas licenciaturas não fecham turmas por baixa adesão dos jovens, profissionais de outras áreas abrem mão de suas carreiras para atuar na área da educação. Vocação, maturidade profissional, oportunidade de desenvolvimento: que movimento é esse que move os mais experientes e que não atrai os mais jovens? Acrescido a este questionamento, temos outra constatação: o aumento da demanda por educação. Essa demanda leva ao surgimento de novas escolas, com características e estruturas diversas. Além de buscarem diferenciais para atender vários públicos, todas têm uma grande necessidade de professores que assumam as salas de aula, presenciais ou virtuais, que produzam materiais, que criem e que promovam a aprendizagem ao longo da vida.

 

O cenário é curioso! A necessidade existe, está posta, mas não atrai, ou atrai a poucos. Que desconstrução é preciso ser empreendida? Que há demanda por professores está claro e isso precisa se tornar público, principalmente para jovens em fase de escolha profissional. No entanto, eles também devem ter ciência que também há uma maior exigência por qualificação.

 

Recorte pertinente

Aqui vou me restringir a uma área em especial, a de línguas estrangeiras, especialmente a área de inglês, que vem sendo mais valorizada dentro das escolas. O que antes não se assumia na integralidade, hoje ganha mais força e espaço, devido às exigências por maior qualificação dos cursos. Forças externas, globalização e maior escolarização dos pais, impulsionaram essa transformação. Logo, o espaço da área de inglês se potencializa nos dias atuais com novos desenhos curriculares, novos cursos intra ou extracurriculares e ainda faz com que oportunidades de trabalho e carreira surjam em maior quantidade. Um exemplo disso são as constantes vagas publicadas nos jornais e sites de busca de empregos. Colégios, escolas bilíngues, cursos de período integral, novos centros de idiomas, grandes grupos investindo na aquisição de escolas, capital estrangeiro entrando no mercado, há inúmeras oportunidades! Mas nesse contexto, os docentes da área passam por um duplo desafio: investir na proficiência da língua e na constante qualificação para o ensino, pois a capacitação dada nas licenciaturas não atende as atuais necessidades e nem desenvolve todas as habilidades.

 

Abre-se, dessa forma, espaço para ações de desenvolvimento complementar em instituições outras que não apenas as de Ensino Superior e, em paralelo, definem-se novos critérios para a seleção e permanência dos profissionais da área nas instituições de ensino. Além do diploma, ter uma ou mais certificações internacionais que comprovem proficiência, ter tido algum tipo de vivência no exterior e ainda alguma formação internacional de metodologia, são requisitos cada vez mais valorizados nos processos seletivos e que, inquestionavelmente, agregam valor ao profissional. Em consequência disso tudo, as escolas também passam por desafios que outros contextos, como o da área de telecomunicações, já passaram: o de trazer para dentro da sua estrutura ações de educação corporativa para que se possa manter a atualização de seus colaboradores, a fim de garantir a competitividade institucional.

 

Reprodução/schoolpartnership.wustl.edu

 

Responsabilidade compartilhada

A carreira é do professor, mas ela acontece e se desenvolve dentro do enquadre institucional. Em decorrência, a qualificação da instituição e do profissional é uma questão de competitividade. Dessa forma, deveria haver uma negociação de expectativas, das escolas para com seu professor e do professor para com a instituição. Portanto, a responsabilidade também deveria ser compartilhada. Isso pode se dar, na medida em que a instituição perceba sua necessidade e promova espaços de aprendizagem por meio de reuniões pedagógicas, treinamentos, cursos complementares, vivências diversificadas e que o professor se permita envolver e participar com vistas a um movimento virtuoso institucional.

 

Mas há algo que é do professor eque ele deve cuidar, que é a sua própria carreira. Nesse sentido, ele precisa protagonizar ações de desenvolvimento, não ficando exclusivamente na dependência passiva de receber de seu empregador uma oportunidade de desenvolvimento. Nem sempre as situações coletivas são suficientes ou adequadas para todos os profissionais. Ter certeza do que se quer, de onde se está, do que se necessita para o crescimento profissional é tarefa do docente. Ele precisa tomar esta responsabilidade em suas mãos e desenhar um plano de desenvolvimento pessoal. Existem muitas possibilidades de desenvolvimento no mercado, oferecidas, por exemplo, por editoras nacionais ou estrangeiras, instituições internacionais que disponibilizam portais especializados com cursos on line, webinars, textos, vídeos, acesso a materiais de treinamento para certificações internacionais, oportunidades de bolsas de estudo ou de vivências no exterior financiadas por ONGS e órgãos públicos. Há muitos meios de acesso ao desenvolvimento, que permitem ao professor de línguas reciclar sua carreira e ampliar a sua atuação com oportunidades ocupacionais, técnicas, gerenciais ou de estratégicas.

 

Reprodução/yvettealtman.blogspot.com

 

Mas, considerando ainda que o recurso mais significativo das escolas foi, é e sempre será o professor, sobram dúvidas sobre a agenda de educação brasileira. Entre elas destaco duas: como atrair, desenvolver e reter talentos na área de educação? E como e até porque algumas instituições desviam talentos de outras áreas para a missão da área de educação? Precisamos refletir sobre tudo isso!

 

Revista Guia Prático do Professor – Ensino Fundamental Ed. 126

*Formada em psicologia e pedagogia, é especialista em consultoria de carreira. Atualmente, ocupa o cargo de diretora executiva do São Paulo Open Centre, centro autorizado pela Cambridge English Language Assessment para aplicação de exames de diversos níveis de proficiência da língua inglesa. Para contatá-la ou obter mais informações sobre o tema, acesse: www.saopauloopencentre.com.br