Depressão infantil em sala de aula

Esteja pronto para identificar sinais da doença em seus alunos e intervir corretamente

Por Caroline Svitras | Foto: Carlos Rincon

Nunca a sociedade foi tão bombardeada por informações de todos os tipos como atualmente. A difusão da internet, dos meios de comunicação e dos dispositivos móveis tem contribuído para que assuntos antes com pouca visibilidade ganhassem espaço na agenda das pessoas. É o que tem acontecido com a disseminação de conhecimento sobre as doenças mentais. Cada vez vez mais tem-se crescido a conscientização sobre a depressão, a ansiedade, transtornos de humor, personalidade e outras questões que atingem a pique humana.

Entretanto, pouco ainda se fala sobre a incidência dessas enfermidades nas crianças. Por mais que queiramos proteger os pequenos de todos os males do mundo, eles também podem ser tomados por estes distúrbios. Na entrevista a seguir, o Dr. Clay Brites fala sobre a depressão infantil, sua manifestação, diagnóstico e como o professor pode intervir na realidade do aluno acometido por esse mal.

 

Ensino Fundamental: Como se manifesta a depressão nas crianças? E quais podem ser os motivos?

Clay Brites: A Depressão é um transtorno onde a criança se apresenta em constante humor deprimido, triste, sem energia e sem sentir prazer mesmo durante situações ou momentos que lhe dava satisfação. Como a depressão é um transtorno de humor, ela pode afetar formas de pensar e de se comportar no ambiente além de afetar seu ciclo biológico, como o sono e o apetite. As manifestações, além de tristeza crônica e persistente, podem na infância levar a irritabilidade, queda de rendimento, abstinência escolar, choro frequente, maior sensibilidade emocional para situações do cotidiano. Pode se manifestar em episódios e ser persistente por meses a anos.

As causas são diversas e geradas por predisposição genética (história de depressão nos pais/parentes), perfil de personalidade (negativista ou muito autoexigente) e por eventos do ambiente que sejam desfavoráveis como bullying, baixo rendimento escolar, frustrações e/ou família conturbada.

 

Avaliação psicológica na escola

 

E.F.: A doença afeta os estudos?

Brites: Sim, leva a queda de rendimento escolar por pouca energia ou engajamento para os estudos, desatenção, dificuldade de raciocínio, indecisão frequente, sonolência na escola.

 

E.F.: Como o professor pode identificar a depressão no aluno?

Brites: Deve ser observado de acordo com a idade. Crianças menores apresentam sinais de expressão facial triste, postura corporal cabisbaixa, perda de interesse por aquilo que dava prazer, atitudes infantilizadas e regressivas, queixas de dor (na cabeça, no abdômen) e enurese (emissão involuntária de urina).

Nos adolescentes ocorrem labilidade maior à rejeição, baixa autoestima, chamam atenção por exibicionismos para se fazer centro das atenções, alterações de sono e de apetite. Nesta fase, a depressão aumenta risco de suicídio (60% destes pensam em se matar e 30% já tentaram).

 

10 DICAS PARA O PROFESSOR EM SALA DE AULA IDENTIFICAR SINAIS DEPRESSIVOS

1) Procure conhecer seus alunos para poder perceber mudanças;
2) Na suspeita de algo que esteja acontecendo com algum(s) dele(s), não tenha receio de perguntar;
3) aborde sempre discretamente e quando o aluno estiver sozinho;
4) Não menospreze os sinais;
5) Criança muito quieta pode sinalizar um problema (e não somente quando ela incomoda na sala de aula);
6) Em momentos de problemas ou decepções, ressalte os pontos positivos do aluno;
7) em caso de isolamento, busque fazer atividades em grupo;
8) Faltas frequentes devem chamar a atenção;
9) Converse com a família para verificar se tais mudanças também tem ocorrido lá e que você está preocupado com o aluno;
10) Encaminhar para avaliação especializada (para psicólogos, psiquiatras infantis ou neuropediatras de acordo com a disponibilidade de cada profissional em sua cidade ou região).

 

Como lidar diante de situações de bullying na escola

 

E.F.: O que a escola pode fazer pelo aluno deprimido?

Brites: Primeiro, identificar o problema, não julgar ou pormenorizar os sinais e os sintomas (“isso não existe”, “frescura”, “é uma fase e vai passar”). Percebido, convocar os pais e encaminhar para atendimento especializado e demonstrar disponibilidade para ajudar.

 

Para finalizar, ele alerta que o “diagnóstico depende exclusivamente de observação clínica e de aplicação de escalas e testes para facilitar o acesso às informações mais contundentes” e que o “tratamento requer intervenções psicoeducativas/psicológicas, apoio constante da família, fazer exercícios e dormir bem, manter a rotina e não se isolar, evitar uso de álcool e drogas; utilizar, com suporte médico especializado, medicações antidepressivas;  psicoterapias específicas com adoção de várias vertentes (terapia cognitiva-comportamental, familiar e interpessoal) e suporte escolar”.

 

Mini-currículo: Dr. Clay Brites – Um dos idealizadores da NeuroSaber, Dr. Clay Brites é pesquisador e doutorando do Laboratório de Dificuldades e Distúrbios da Aprendizagem e Transtornos de Atenção (Disapre), da UNICAMP. Além disso, é professor do curso de pós-graduação de Neuropsicologia Aplicada à Neurologia Infantil na Unicamp e membro do Departamento de Neurologia da Sociedade Paranaense de Pediatria.