Especialista esclarece dúvidas sobre bullying e suicídio

Muitos são os que se identificam com problemas que parecem não ter fim

Além de “13 Reasons Why… Recentemente, a Netflix, provedora global de filmes via streaming, lançou uma série que gerou bastante discussão acerca do bullying e do suicídio. A seguir especialista esclarece algumas dúvidas. Confira!

Especialista esclarece dúvidas sobre bullying e suicídio

Baseada no livro homônimo de Jay Asher, 13 Reasons Why – em português: Os 13 porquês – conta a história de Hannah Baker, uma aluna que comete suicídio após sofrer bullying e abuso físico no colégio e envia, postumamente, 13 fitas a 13 pessoas que, de alguma forma, causaram dor a ela. No decorrer da história, muito se fala sobre como o caso de Hannah poderia ser evitado e como sua escola, seus professores e seus pais poderiam ter identificado que a menina estava passando por problemas de bullying. É por isso que muitas crianças e pré-adolescentes se reconheceram nos personagens da série.

Mas enquanto uns se veem em Hannah, com problemas que parecem não ter fim, outros já se enxergam no papel de seus algozes e até descobrem o quanto isso é cruel. Por outro lado, muitos se identificam com aqueles que, mesmo sabendo que alguém está sofrendo, simplesmente não fazem nada. Ou pior, com os que não têm a menor ideia do que acontece à sua volta, posição adotada, normalmente, pelos adultos em geral – incluindo educadores, que deveriam ficar mais alertas, principalmente devido às estatísticas assustadoras sobre o tema.

Segundo pesquisa do Ministério da Saúde e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os casos de bullying em escolas aumentaram de 5% para 7% e 20,8% dos alunos já praticaram algum tipo de abuso contra os colegas. Além disso, como também já foi apurado que a prática é proporcionalmente maior entre os meninos do que entre as meninas, entrevistamos a psicóloga e psicopedagoga Marisa Irene Siqueira Castanho, para esclarecer algumas questões sobre o assunto. Veja!

O que é o bullying?

Marisa Irene Siqueira Castanho: O bullying é um tipo específico de agressão em que o comportamento de uma pessoa se destina a prejudicar ou perturbar outro indivíduo, ação que ocorre repetidamente ao longo do tempo e onde existe um desequilíbrio de força, ou seja, acontece com uma pessoa ou grupo mais poderoso que ataca a menos poderosa. Nos Estados Unidos e na Europa, pesquisas mostram a incidência desse fenômeno entre crianças e adolescentes na faixa etária de 10 a 19 anos, incrementada nos tempos atuais pelo cyber bullying. Portanto, trata-se de um fenômeno antigo que, dadas as características da sociedade atual, tende a se expandir. Outra questão apontada pelos estudos e pesquisadores é que a incidência desse fenômeno é típica de lacunas nos valores morais, sentimentos e habilidades sociais. Por isso, a agressão entre crianças e pré-adolescentes deve ser levada a sério tanto na escola quanto em casa, pois há uma forte relação entre ideias suicidas e as agressões sofridas por bullying.

Qual a relação do bullying com a pré-adolescência?

Castanho: A própria pré-adolescência é um período marcado por muitas mudanças físicas, psicológicas e sociais. A partir daí, o ser em transformação ainda precisa lidar com alterações físicas e hormonais, responsáveis pela construção de sua imagem corporal e, por consequência, de sua identidade. Tais mudanças fazem com que o pré-adolescente e o adolescente sintam-se inseguros e solitários. A partir daí, em momentos de crise, é normal que se busque por respostas com seus iguais. Normalmente, um pré-adolescente ou adolescente busca outro para tentar lidar com seus problemas, uma vez que esse outro também está passando pelas mesmas questões. Essa tendência de buscar ajuda no outro e não nos pais ou educadores, aliada às questões anteriores, pode ser bastante prejudicial.

Como o bullying se relaciona com as redes sociais?

Castanho: Especialmente para o pré adolescente e adolescente é necessário considerar os impactos psicológicos como usuários e seguidores de redes sociais, ressaltando a sensação de proximidade, de pertencer a um mesmo grupo. Eles são altamente influenciados na construção de sua subjetividade e, dessa forma, desenvolvem tipos próprios em seu modo de ser, de pensar, de falar, de se relacionar, enquanto ainda constroem verdades para si, sobre si mesmos e sobre os outros. Essas construções se tornam mais intensas quando são fortemente influenciadas pelas emoções e também pelo sofrimento da vítima, ambos alimentados pelo poder do agressor. A desvalorização do outro garante para o agressor uma afirmação e posição de destaque entre seus seguidores. Portanto, eles são seres em formação de identidade e subjetividade, isolados de pais e educadores em seu mundo virtual e que competem pela atenção de seguidores para a afirmação da própria identidade.

O que a escola e os professores podem fazer para evitar ou amenizar casos de bullying?

Castanho: O campo da educação deve se preocupar com o perfil do estudante contemporâneo principalmente no que se refere ao uso das tecnologias, o que não pode ser ignorado. Pré adolescentes e adolescentes que encontram em seus educadores, pais e professores, pessoas antenadas na realidade atual, abertas para o diálogo e para a discussão dos temas polêmicos que circundam e contextualizam suas vivências e experiências, terão menos chances de se exporem a riscos contra sua própria vida e sobrevivência. Não há como controlar o acesso deles às redes sociais, mas é preciso se solidarizar e estar atento, enquanto educador, às ameaças do mundo externo e interno.

* Marisa Irene Siqueira Castanho além de psicóloga e psicopedagoga, é mestre e doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pelo Instituto de Psicologia da Universidade São Paulo (USP) e membro da diretoria executiva da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp).

Revista Guia Prático do Professor Ensino Fundamental I – Ed. 151

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