Por uma educação transformadora

Rosa Bertholini, diretora da Escola Teia de Aprendizagens, faz críticas fortes e construtivas sobre a Base Nacional Curricular Comum

Da Redação | Fotos: Divulgação | Adaptação web Isis Fonseca

Rosa Bertholini

Amor, autoconhecimento e democracia. Estes são os três pilares da Escola de Educação Infantil e Fundamental Teia de Aprendizagens, dirigida pela pedagoga Rosa Bertholini, educadora com mais de 40 anos de experiência em sala de aula – grande parte desse período em escolas públicas. Localizada na zona Oeste da cidade de São Paulo, a Teia de Aprendizagens é referência em ensino integral, acolhedor e de qualidade, sendo reconhecida por educadores brasileiros e do exterior como uma experiência inovadora.

Observadora atenta dos rumos e desafios da educação no Brasil, Rosa Bertholini participou de uma série de debates e audiências sobre a Base Nacional Curricular Comum (BNCC) e lança nesta entrevista o olhar de quem conhece e vive o dia a dia das crianças, dos jovens e dos professores no ambiente de ensino. Esse seu olhar reflexivo, crítico e propositivo mira uma educação de qualidade, integral, cidadã e transformadora para todos.

Depois de tantos debates e audiências, qual a sua avaliação do texto da Base Nacional Curricular Comum (BNCC) do MEC?

A BNCC é motivo de grandes preocupações por parte de muitos educadores de nosso país. Lembrando que a LDB, que existe desde 1996, já assegura autonomia pedagógica das escolas, prevendo um núcleo comum para o currículo em função das peculiaridades locais, de forma que as escolas possam se organizar de diversas formas: por ciclos, por projetos adequados em seus projetos políticos-pedagógicos (PPP) etc. Não sendo, portanto, obrigatório se organizarem por disciplinas, componentes curriculares ou por séries. No entanto, a BNCC fez essa opção estreita, arcaica e limitante, não garantindo a contemporaneidade da educação e a qualidade do ensino.

O currículo não pode ser visto somente como um conjunto de conteúdos; o currículo vai muito além dessas habilidades, deve abranger outras tantas dimensões como a subjetividade, a comunidade, a universalidade, bem como os aspectos socioemocionais e cognitivos. Na introdução o documento aponta dez aprendizagens que são de fato essenciais para construir uma nação democrática e menos desigual. Porém, nas mais de 300 páginas, isto é, na BNCC em seu desenvolvimento, isso é desconsiderado, esquartejado em conteúdos e dizimado em seriação.

A homogeneização das matrizes curriculares e a retomada de um modelo pautado em competências, ignorando as Diretrizes Curriculares Nacionais e a própria LDB, estabelecendo objetivos de aprendizagens de cada ano da educação infantil e do ensino fundamental, e que exclui o ensino médio, me trazem um quadro de um país que se preocupa somente com a reprodução de certos conteúdos no lugar de implantar uma política de educação de qualidade.

Sua participação nas discussões sobre a BNCC da educação infantil foi significativa. Conte-nos um pouco sobre o processo. Você ficou satisfeita com o resultado?

Vários movimentos, grupos e conferências trouxeram na contramão oficial uma reflexão profunda sobre a BNCC. Fiz parte de um grupo de educadores nessa discussão.

Dedico-me, especialmente, ao estudo da educação infantil, onde venho há algum tempo pesquisando as infâncias na educação formal. Entendo que a BNCC comete um erro grave quando separa “creche”, a primeiríssima infância, da pré-escola, em que cada segmento dentro da educação infantil é fracionado por idades. Trata-se de uma separação imprópria do ponto de vista conceitual e pedagógico, provocando rupturas no interior dessa etapa do desenvolvimento humano.

A BNCC da educação infantil negligencia na identidade que temos que assegurar. Os campos de experiências que organizam a base são fundamentais no desenvolvimento da infância, podendo dizer que se baseiam em algumas experiências bem avançadas da educação infantil, porém são fragmentados na forma como foram organizados, com rupturas e descontinuidades.

A BNCC retrocede em relação ao movimento de traçar os direitos de aprendizagens e também quando define de forma fechada os campos de experiências.
A expressão desenvolvimentista que predomina na escrita da base impede que os campos de experiências possam se constituir de outras formas, como eixo, dimensões e pilares mais abertos.

A base se silencia em relação às produções infantis como potencializadoras dentro dos processos de aprendizagens. A especificidade do currículo apresentada na etapa da educação básica afasta a prática, o “fazer” – ao menos na forma que são apresentadas pela base. O desenvolvimento da criança depende da qualidade da relação que se estabelece com os materiais, objetos e adultos de seu entorno, partindo do pressuposto que a criança conhece o mundo como um pesquisador, sempre curioso, atento e produtor de teorias interpretativas.

Confira a entrevista completa na Revista Arte Educa – Ensino Fundamental Ed. 16!