Descobrindo a História do Brasil

Memorizar, para não dizer simplesmente decorar, não ajuda a criançada a compreender o contexto da maioria dos episódios históricos

Da Redação | Foto Domínio público | Adaptação web Isis Fonseca

Descobrindo a história do Brasil

Quando se fala em descobrimento do Brasil ou qualquer outro episódio relativo à História, muitas vezes, os alunos apenas memorizam datas e nomes, pois ainda não conseguem relacionar os fatos que lhes são apresentados a outros elementos que participaram do evento.

Apesar da imaginação criativa que a maioria deles tem, ainda recorrendo à conquista do nosso país como exemplo, tudo fica restrito tanto a um navio aportando em águas nacionais quanto a Pedro Alvarez Cabral presenteando os índios que, assim, aceitaram pacificamente os portugueses – que só vieram para cá para extrair matérias-primas e, em virtude da mão de obra suficiente, ainda tentaram escravizar os povos nativos.

Contudo, a realidade é um pouco diferente das informações que trazem os livros da disciplina, que devem ser lidos inclusive nas interlinhas. Agora observe o seguinte parágrafo:

“Aos poucos se escutam vozes em
língua tupi, que vão aumentando de
volume gradativamente, em meio a sons
silvestres. Surgem índios seminus de um
ponto alto da floresta. Eles observam um
grupo de portugueses desembarcando
em suas praias, o que os deixa furiosos.
Todos estão decididos a trucidá-lo, pois
entendem a ação de tal grupo como
desrespeito e invasão.”

Embora tal parágrafo invoque a visão dos índios, ele dá um colorido extra ao aprendizado que acontece ludicamente, tanto que os alunos acabam por vivenciar o fato, sentem-se como participantes da cena e, a partir daí, também passam a questionar outros aspectos impensados até então.

Consequentemente, o professor que realmente quer ensinar História, deve se valer de recursos extras, para envolver os alunos em uma disciplina que trata do passado, mas influencia o presente, enquanto também projeta o futuro.

Entre tais recursos, há filmes, jogos interativos, certas obras romanceadas, livros paradidáticos e até peças de teatro, que exercitam o raciocínio e fazem a criançada extrapolar o senso comum.

Entenda o processo proposto

O parágrafo que destacamos anteriormente como exemplo, é da peça paradidática Piratininga – A história de uma metrópole, de sertão a capital, que tem o intuito de apresentar vertentes e questionamentos, por meio de personagens fundamentais ao processo histórico de ocupação e formação da cidade de São Paulo, a partir de uma dupla de narradores que possui visões antagônicas, pois se trata de um nativo e um europeu.

Entre tais personagens destacam-se a índia Bartira, o líder tupiniquim Tibiriçá e o explorador João Ramalho, que enredam o nobre português Martim Afonso de Souza e sua esposa Dona Ana Pimentel, além de alguns dos principais jesuítas do período, como Padre Manoel da Nóbrega, Padre Leonardo Nunes e o, então, Irmão José de Anchieta, em uma trama na qual a ordem é ocupar as terras e expulsar os invasores, em meio a batalhas navais, nativos canibais e tiros de canhão, fatos que condizem com os registros históricos existentes.

Com apenas uma hora de encenação, o espetáculo abrange mais de 30 anos de História, que compreendem desde a fundação da capitania de São Vicente, a chegada dos jesuítas ao atual Pateo do Colégio, o nascimento e a consolidação da Vila de São Paulo, até as decisões políticas tomadas em meio a enfrentamentos entre indígenas revoltosos e que os defendiam o povoado que, depois de séculos, deixou de ser uma cidade pobre do sertão e, finalmente, transformou-se na megalópole mais importante do Brasil.

“Hoje, somos o que somos, porque povos e culturas diferentes traçaram o caminho que nos trouxeram até aqui!”, ressalta Henrique Guzzo, pesquisador do tema e autor da peça infantojuvenil que resgata a realidade da época em meio a uma grande aventura histórica.

Como pedagogo, ele ainda diz que o tempo necessário à apresentação tradicional desse período histórico às crianças exigiria muito mais que uma aula, principalmente se o professor for frisar que havia muita coisa importante na época que tinha de ser deixada para trás em nome dos interesses dos colonizadores.

Consequentemente, junto a algumas alternativas que ainda deveriam ser pesquisadas pelos próprios docentes para facilitar a compreensão infantil, a peça pode ser tida como em um rico material que pode ser explorado no Ensino Fundamental, inclusive como elemento de discussão e aprofundamento do tema, devido ao poder de despertar a atenção dos alunos que, a partir dela, também seriam estimulados tanto a entender a História sob uma perspectiva mais ampla e  contextualizada, quanto a se interessar pelo teatro, arte que dramatiza a realidade, emociona, faz rir e chorar, mas que também ensina de uma forma bastante divertida!

Adaptado de Revista Guia Prático do Professor – Ensino Fundamental Ed. 142